Canção do amor armado – Thiago de Mello

16/10/2018

Estou passando para atualizar este post. O texto anterior foi escrito antes do golpe que derrubou Dilma Rousseff da presidência do Brasil e jogou o país neste caos. Era um mensagem de esperança, por isso parecia tão deslocada no tempo, tão utópica, tão lunática. Eu não contava com as astúcias da Besta bíblica e dos bestificados. Eu fazia um juízo do ser humano muito melhor do que a realidade mostra. O humano morreu. Ressuscitá-lo vai dar um trabalhão …

Paulo Martins

Canção do amor armado – Thiago de Mello

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,

onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, é universal
como pássaro voando – sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
Deixou de ser dever e de ser cívico,
Deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma – de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede, e
não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.

Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
nem vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
Que era a sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.
De canto e de paz é o povo,
Quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
Cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo – um simples
canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar,

Rio, 6 de fevereiro, 1966

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