Canção do amor armado – Thiago de Mello

 

Em primeiro de abril de 1964 foi aplicado o golpe militar no Brasil. Em nome de falsos motivos.

A liberdade foi suprimida logo no primeiro dia do golpe e o país foi jogado na escuridão por 21 anos. O voto, um dever e um direito, foi cassado.

Tratou-se de um conluio entre grandes empresas – que financiaram o levante -, exército, mídia golpista e  o governo dos Estados Unidos. A participação da mídia golpista na formatação da opinião pública foi fundamental. Como em todos os golpes.

Está em marcha no Brasil, hoje, nova tentativa de golpe. Também com forte envolvimento midiático. Não repetirão 1964. Estamos conscientes e alertas. 

O voto não poderá ser, novamente, cassado. São 54 milhões.

Vamos combater com as armas que temos em mãos.

Sem violência, sem ódio. Com amor e com a força criativa da esperança, da alegria e do humor. Com a serenidade dos que têm argumentos. Sem ódio ou inimigos. A favor da paz e da justiça que seja digna deste nome. Com poesia, música e voto consciente.

Não há força que consiga deter o povo sereno mas sem medo, sem ódio, consciente, manifestando em paz, seu desejo de ser feliz.

“Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo – um simples canto
de amor”.

Canção do amor armado – Thiago de Mello

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,

 onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, é universal
como pássaro voando – sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
Deixou de ser dever e de ser cívico,
Deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma – de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede, e
não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.

Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
nem vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
Que era a sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
Quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
Cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo – um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar,

Rio, 6 de fevereiro, 1966

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