“O Brasil encarou de uma vez por todas que não é um país. É completamente dividido. Nunca foi um país.
Nós nem sequer conseguimos constituir uma narrativa unificada sobre a ditadura militar, uma linha vermelha dizendo que ‘daqui’ não passará.
Jair Bolsonaro é um resultado disso. Campeão de votos entre os mais ricos, acima de cinco salários mínimos. Ou seja, quem salva o Brasil são as pessoas mais pobres. Se dependesse das pessoas acima de 5 salários mínimos, a gente já teria sido transformado num aberração.
A mídia brasileira funcionou como um partido. Alimentaram manifestações, que não teriam o tamanho que tiveram sem isso.
Foi um dos momentos mais baixos da história da República. A divulgação de grampos no Jornal Nacional, com uma hora, 40 minutos de jogral. Uma coisa aterradora.
Existe um princípio básico na democracia que diz que um cidadão, e pode ser o ex-presidente, tem o direito de se defender do Estado. Isso foi completamente anulado. Até seu próprio advogado havia sido grampeado.
Para boa parte da população que vai ficar satisfeita com o simples impeachment da Dilma, vai voltar pra casa, silenciosamente criando um assentimento mudo, o que posso dizer é: nós não vivemos no mesmo país, nós apenas ocupamos o mesmo espaço — por infelicidade.
Estamos em campos completamente opostos, temos antagonismos insuperáveis. Vamos brigar até o fim. Nós vamos nos encontrar em campos opostos.
Em certos momentos é preciso deixar isso claro. Existem divisões. Não há nada que nos una. Nós não queremos a mesma coisa. No que me diz respeito, nós vamos brigar até o fim.
Precisaremos apenas jogar para algum tipo de espaço político os nossos antagonismos. Só.”
(Vladimir Safatle)
Publicado em Diário do Centro do Mundo