Os mínimos e máximos da ideologia neoliberal

Margaret Thatcher’s role in plan to dismantle welfare state revealed

Newly released Downing Street documents show Tory cabinet considered compulsory charges for schooling and end to NHS

The Guardian  28/12/2012

Tradução:

Revelado o papel de Margaret Thatcher no plano para desmantelar o estado de bem-estar social

Documentos liberados recentemente de Downing Street (sede do Governo) mostram que o gabinete Tory (Partido Conservador) avaliou terminar com o ensino gratuito e com o NHS – Sistema Nacional de Saúde.

Margaret Thatcher left a dark legacy that has still not disappeared
Hugo Young, The Guardian, 08/04/2013

Tradução:

Margaret Thatcher deixou um legado sombrio que ainda não desapareceu.

A política do estado mínimo de Reagan, Thatcher e a desregulamentação do mercado financeiro norte-americano praticada pelo FED levou à quebradeira das economias ocidentais e à crise  global de 2008, presente até hoje.

Estimativas indicam que a papelada circulando no mercado financeiro global somava, em 2009, 600 trilhões de dólares, comparada a um PIB global de 54 trilhões de dólares. E as pessoas que se consideram sensatas têm coragem de defender a tese da “autorregulação” dos mercados. Os EUA sozinho utilizou 700 bilhões de dólares de recursos dos contribuintes – a tal “Mãe Visível” – para tirar os bancos do atoleiro. Harvey comentou que, ao viajar pelas cidades norte-americanas em 2009 e 2010 era possível observar o estrago que a crise do subprime fez nas cidades e na vida das pessoas. Em sua opinião, os 700 bilhões de dólares teriam sido melhor empregados se tivessem sido investidos nas comunidades e em minorar o sofrimento das pessoas em vez de terem sido utilizados para salvar bancos viciados no cassino financeiro dos mercados especulativos de opções, futuros e derivativos.

Este texto serve como introdução ao excelente artigo de Ulysses Ferraz, publicado em seu blog no ano passado. Tendo em vista as primeiras ações do governo interino usurpador de Michel Miguel Temer podemos observar que se trata de artigo premonitório. Infelizmente Ulysses Ferraz sempre antecipa e acerta na mosca. Infelizmente. Nos esperam tempos sombrios.

Paulo Martins

Segunda-feira, 15 de junho de 2015
Os mínimos e máximos da ideologia neoliberal

Foto: Kuwait 1991 “Operation Desert Storm 22” – David McLeod
“O governo existe para nos proteger uns dos outros. O ponto em que o governo foi além de seus limites foi quando decidiu nos proteger de nós mesmos.” (Ronald Reagan)

Sob o pretexto de um Estado mínimo, os governos de Ronald Reagan, George H. W. Bush e Margaret Thatcher construíram nos anos 1980/90, em seus respectivos países, Estados de segurança máxima. Colocaram em prática uma lógica de opostos. De mínimos e máximos. Uma lógica binária de minimização ou maximação. Minimizar regulamentações, impostos, benefícios sociais, direitos trabalhistas, educação e saúde públicas. Maximizar desigualdades, concentração de renda e riqueza, privatizações, terceirizações, aparatos repressivos, gastos militares, serviços de informações e espionagem. Maximizar o poder dos mercados financeiros e bancos. Maximizar a riqueza dos ricos. Maximizar bônus dos altos executivos. Minimizar salários da classe trabalhadora.

Sob o pretexto da liberdade, esses governos alimentaram bolhas especulativas, declararam guerras, cortaram benefícios sociais historicamente adquiridos e, ao contrário do discurso de austeridade fiscal que venderam para o mundo, produziram vultosos déficits públicos. Invocaram a liberdade para proteger suas economias, bombardear países, incentivar a indústria bélica, garantir suprimento barato de combustíveis fósseis e acessar mercados externos em condições vantajosas. Invocaram a liberdade para proteger seus mercados internos, ignorar acordos ambientais, instaurar o terror e conservar o antigo modo de fazer negócios. Invocaram a liberdade para implantar um sistema de vigilância próximo à distopia orwelliana, quando exerceram o controle mais abrangente e repressivo do Estado sobre o cidadão em tempos de democracia.

Sob o pretexto de um Estado mínimo e da liberdade máxima, esses governos garantiram o máximo para quem já possuía o máximo. Ofereceram o mínimo para quem não possuía sequer o mínimo. Gastaram recursos escassos para atender apenas a seus grupos de interesse. Destruíram o meio-ambiente ao máximo e entregaram sempre o mínimo em retornos sociais para a maioria da população. No final das contas, maximizaram a miséria para garantir o máximo de riqueza, renda e luxo para um mínimo de pessoas já privilegiadas.

Com o respaldo de economistas vencedores de prêmio Nobel e prestigiosos intelectuais, concederam uma aura de “legitimidade” moral para o egoísmo, para a ganância e para a destruição. Alastraram essas práticas para o resto do mundo em velocidade máxima, com um mínimo de resistência. Criaram mecanismos simbólicos e materiais para disseminar suas ideologias. Com eufemismos cínicos, construíram uma linguagem própria, uma gramática específica, para a produção de discursos pretensamente científicos e a fabricação de consenso. Capturaram os porta-vozes da grande mídia, das classes políticas e da ilustre academia. Em escala global. Deram luz a uma nova hegemonia. Lançaram trevas sobre os desfavorecidos mundo afora. E chamaram tudo isso de nova economia.

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