O que é a justiça?

Compartilho texto do amigo do Facebook, Flávio Antonio da Cruz. Compartilho o texto e as angústias.

“”Ando meio sem tempo. Perdido em meio a pensamentos. Em débito com amigos. Claro, sempre em débito. Encontrei alguns minutos, porém, para escrever um breve texto. O que é a justiça? Haverá justiça? Alguém é justo? Alguma solução é justa? A justiça é crença. Cuida-se de uma daquelas buscas metafísicas fadadas ao fracasso. Muito maior o fracasso, todavia, quando se desiste dessa incessante procura… Não tenho pretensão de precisar o que é a justiça. Talvez seja muito mais fácil dizer o que seria injusto, em um dado caso… Muitos imaginam a justiça como uma espécie de equipolência, como uma correta atribuição, sopesamento, reconhecimento e atribuição de relevância. Há quem pense em justiça natural, olvidando que a realidade é cruel, que ovelhas são o jantar dos leões, que a ordem surge do caos – aliás, a diferença entre caos e ordem é apenas um problema de observação, contingência e redundância… Muitos imaginam que justiça seria um problema de autoridade, mas esquecem que há ordens que não se cumprem. Há quem pense que justiça promanaria de cargos, esquecendo que cargos são apenas totens em um mundo repleto de idolatria cega. Há quem pense que justiça seria técnica, fruto do conhecimento de bacharéis adestrados na leitura de leis, esquecendo que a forma mais fácil de esquecer a justiça é falar corriqueiramente em seu nome. Há quem pense que justiça seria fruto da reflexão de filósofos em suas cátedras, presunçosos por conhecerem a incapacidade do próprio conhecimento. Há quem pense que justiça se faria com força, esquecendo que todo exercício de poder tende ao abuso. Não há justiça nesse mundo! E não há outro mundo… Há apenas a tendência, o limite, o inefável, o indemonstrável… Não há justiça em se perder um olho por se protestar por um país melhor. Não há justiça em haver gente que comemora isso…, regozijando-se com o próprio sadismo. Não há justiça em se converter impeachment em moção de desconfiança, quanto a Constituição diz o contrário. Não há justiça quando a austeridade começa e termina no andar de baixo. Aliás, não há justiça em andares, em estratos, em estamentos, em nobres edis ou em excelentíssimos isso e aquilo… Não há justiça quando promotores violentam quem já nasceu vítima… quando ameaçam permitir que crianças sejam seviciadas, demonstrando conhecer os abusos do cárcere que permitem no cotidiano… Não há justiça em se manter suspeitos presos incomunicáveis, negando-lhes o acesso à defesa… Não há justiça em se satanizar quem defende a legalidade, dado que a lei ainda deve compreendida como a aposta em um mínimo de racionalidade, em que pese o quão irracionais muitas leis sejam… Não há justiça em se imaginar que a luta por reconhecimento deveria ser substituída pelo silêncio da conivência. Não há justiça em se imaginar que o problema do mundo é apenas o outro, quando todos somos, em maior ou menor medida, elos em uma mesma cadeia…, corresponsáveis pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer. Não há justiça em se falar em meritocracia, arvorando-se na condição de merecedor, mas com exames prima facie, sem tomar tudo em conta. Há mérito no mundo. Há mérito em se disputar uma olimpíada, depois de se perder os braços. Há mérito em sobreviver ao encarceramento sem se embrutecer. Há mérito em continuar a amar em um mundo inundado pelo ódio. Há mérito em se buscar justiça, quando se sabe de antemão que apenas poderá ser encontrada uma tímida sombra sua… O equívoco está em se imaginar que justiça seja mérito, entendendo-o em termos financeiros ou concurseiros. Não sei se vale a pena continuar a falar em justiça, quando tudo quanto sei dizer é o injusto…, aquilo que todos sabem – ou deveriam saber -, conquanto muitos prefiram pensar que justiça seja aquilo que se sobre ela se fala, em um mundo em que se costuma falar qualquer coisa sobre qualquer coisa…

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