PEC 241: suspensão da democracia por 20 anos

Nós, os economistas, especialmente os tecnocratas, adoramos modelos econômicos em que o povo aparece como variável exógena, que deve ser desconsiderada para não atrapalhar o modelo.

Se pudermos excluir também a livre manifestação da sociedade nas urnas, impedindo que possam escolher seu modelo econômico a cada período de 4 anos, melhor ainda.

É esta a minha principal crítica à PEC 241 e esta ninguém discute.

Não vêem qualquer ilegitimidade em impor, sem passar pelo crivo das urnas e sem discutir com a sociedade, mudanças na Constituição Federal por 20 anos.

Este estelionato, muito maior que o eventual estelionato do governo Dilma, parece ser considerado um ‘estelionato do bem”. Ninguém fala no estelionato-Temer. O assunto saiu de pauta.

Alexandre Schwartsman, em artigo publicado na Folha de São Paulo, ataca quem ataca a PEC 241. Só que ele escolhe a crítica fácil, contra aspectos dos artigos ou contra autores que não fundamentaram suas críticas, talvez por falta de espaço no jornal, talvez porque abordaram apenas um aspecto perverso da PEC. Outros artigos mais bem fundamentados contra a PEC ele deixou de lado.

Na verdade, Schwartsman perde mais tempo discutindo um ou outro ponto dos artigos contrários à PEC 241 do que em fazer uma análise profunda dos seus prós e contras.

Nenhum economista da casa grande intelectual discute o principal aspecto do pacotão de reformas: está sendo enfiado goela abaixo do país por um Congresso falido e por um governo provisório, não eleito com esta plataforma.

Economistas adoram uma ditacraciazinha que deixe o povo de fora dos seus modelos econométricos.

Ora, se querem mesmo impor uma reforma do tamanho do Estado brasileiro – e está nítido que é isto o que querem – que o façam para o período de 2016 a 2018 e deixem para a sociedade decidir livremente nas eleições de 2018 o que querem para o próximo período de governo. E assim, nas urnas, de 4 em 4 anos.

Por que não deixam para cada novo governo eleito decidir sua política econômica, proveniente da vontade das urnas? Para aproveitar a oportunidade histórica de déficit de democracia? Para aproveitar o golpe, antes que o cenário político-policial se deteriore ainda mais?

Os economistas erram – embora Meirelles seja engenheiro e administrador, está cercado por economistas. Por que errar por 20 anos, quando o estrago será grande e irreparável? Sejam mais humildes, doutores.

Arroz à la grega pode ser bom, mas política econômica à la grega leva ao abismo. Até a área de pesquisas do FMI já constatou o estrago que o austericídio receitado pelo FMI e pelos bancos alemães provocou na economia da Grécia. Ao final de pouco tempo, a relação dívida/PIB se deteriorou e virou uma verdadeira catástrofe, pelo afundamento do PIB. PIB ladeira abaixo, quando engrena e pega velocidade, ninguém segura.

A soma de abismo econômico com crise político-policial é um terreno fértil para o crescimento do ódio social. Se é isso que os formatadores de opinião querem …

Não se esqueçam de mandar blindar os seus carros e gradear as portarias dos seus prédios. Vai ser preciso também triplicar o número de cadeias e penitenciárias e contratar a metade do país como policiais para vigiar, dia e noite, e prender, a outra metade.

Boa sorte, irmãos.

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