Os economistas de vitrine e suas fantásticas previsões, por André Araújo

Estes  “economistas de prateleira” já têm pronta a única, amarga e definitiva poção mágica, sempre uma ideia rasa e simplista, pronta para consumo. Eles não têm qualquer garantia, mas precisam fazer  com que todos acreditem que  sabem qual a doença e qual o caminho para a sua cura. Como são médicos de uma droga só, precisam que todos acreditem que o diagnóstico (a doença) se encaixa no remédio.

Se a realidade mostra que o remédio está piorando a saúde do paciente, estes “economistas de prateleira” recomendam a dobra da aposta. Mais do mesmo amargo veneno. Mais austeridade, mais eliminação de demanda e de investimento, mais bloqueio dos fatores  que dinamizam a economia e criam empregos. No fundo do poço da recessão tem outro poço, da depressão. E, no longo prazo, muitos morrerão pelo caminho, vidas serão  arruinadas pelos experimentos de médicos de um remédio só. Elixir tosco … experimentos de curandeiros … voodoo economics.

Paulo Martins

Publicado em jornalggn.com.br

Os economistas de vitrine e suas fantásticas previsões

por André Araújo

Velho hábito de gente antiga, guardo jornais por seis meses e começo a reler em dias de ócio no interior quanto o tempo não passa e o silencio é só quebrado pelos bandos de maritacas.

Os chamados “economistas de vitrine” ou “de mercado”, sempre disponíveis para entrevistas de jornal, rádio e tv fazem afirmações peremptórias. Logo após a queda de Dilma começaram profecias audaciosas: com a nova equipe econômica e as medidas de austeridade voltará a confiança e a economia já mostrará crescimento no 2º semestre. Todas centravam suas certezas exclusivamente em uma política de austeridade, algo de uma pobreza intelectual franciscana. Onde estudaram? Com que mestres? Não é possível alguém se vender como economista e ser tão limitado, tão raso. É evidente que em um País com profunda recessão, resultante de várias causas, um só remédio não tem o dom de curar um quadro clínico de múltiplas complicações.

Nenhuma política econômica se constrói só com uma medida. Política econômica é um CONJUNTO de medidas, uma combinação de ideias e de escolas, de provideências articuladas, nos tempos de Delfim se denominavam como “pacotes”. Há muito tempo o melhor pensamento econômico opera com “fusion economics”, não há única receita pronta para todas as doenças. O grande Albert Hirschman, um dos melhores economistas especializados em países emergentes, cujo autobiografia em português tem o titulo de AUTO SUBVERSÃO, tem a frase para isso “sempre o mesmo remédio para doenças diferentes, sempre o mesmo diagnóstico tosco e errado para moléstias complexas, será que economistas não evoluem?”

Visitei Hirschman alguns anos antes de sua morte, em 2012, no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e suas ideias anti-convencionais impressionavam. Ele era iconoclasta em relação a pensamentos categóricos do tipo “teto de gastos”, não acreditava em crescimento equilibrado, todo crescimento é desequilibrado mas é desse desequilíbrio que se sustentam os ciclos virtuosos, um crescimento sustentável é uma quimera atrás da qual correm economistas teóricos e nada práticos porque não é da natureza das coisas esse equilíbrio etéreo.

O remédio exclusivo de austeridade foi criticado no ano passado por ninguém menos que o Fundo Monetário Internacional na sua revisão da economia grega. O FMI em seu relatório de avaliação da Grécia disse textualmente que mais austeridade não iria tirar a Grécia da crise.

Grandes economistas como Dani Rodrick, Joseph Stiglitz e Paul Krugman tem dezenas de trabalhos sobre a inadequação da receita de austeridade para economias em recessão.

Não obstante tantas lições, os “economistas de vitrine” continuam apostando suas fichas em receitas de impostura, como as da dupla Meirelles-Goldfajn, que não levarão a lugar algum porque são remédios errados para doenças erradamente diagnosticadas.

E joga-se o destino de grandes nações na mão desses médicos de alicate e martelo, a quem falta refinamento e sofisticação intelectual à altura de uma crise muito maior que eles.

Colocar o destino de 200 milhões de pessoas na cabeça de um executivo de banco médio sem nenhum currículo de formulador econômico que terceiriza a política para um banco central de dinossauros fanáticos pela estabilidade de cemitério quando a questão do desemprego é um vulcão a explodir, é algo de uma inconsequência impressionante pela falta de percepção elementar da realidade política decorrente de medidas econômicas equivocadas.

E todo esse espetáculo de erros acolitado pelos “economistas de vitrine”, que acham que uma lei de congelamento de gastos resolve por si só um conjunto de complexos problemas econômicos que exige muito mais que um teórico programa de 20 anos, além de tudo algo de difícil operacionalidade, mais nuvem que chão, em vinte anos o mundo não terá a mais remota semelhança com o mundo de hoje.

Entrevista de 1º de outubro de 2016, no ESTADÃO, pag.B6 da economista Zeina Latif , uma das mais constantes na mídia, com o título “O ajuste fiscal é o caminho para sair da crise”, o título já define o pensamento e nessa linha há dezenas de entrevistas de “economistas de vitrine”, 10 a 2 no circuito na mídia impressa e eletrônica, um carrossel que gira em falso sobre ideias simplórias, rasas, destituídas de conteúdo doutrinário e histórico.

Aos que apontam esse caminho errado vem a mesma, a mesmíssima resposta: “Ah, mas a Dilma quis fazer diferente e olhe o que aconteceu”. A política econômica do governo Dilma era também uma OUTRA combinação errada, sem articulação de fatores, sem metas claras, era uma soma de quebra galhos improvisados que visavam a ganhar o mês sem saber como acabaria o ano. O fato da gestão Dilma errar não significa que fazer o contrário do que ela fez vai dar certo, as duas políticas econômicas podem estar erradas, dois erros não fazem um acerto, aliás é até difícil definir qual era a economia de Dilma e qual é a economia de Temer porque ambas são inconsistentes, incompletas, de elaboração pobre e simplista.

Dilma fez uma combinação errada de políticas e Meirelles está fazendo política de uma nota só e, pior que isso, sua austeridade é fajuta e não tem boas bases doutrinárias, é apenas voluntariosa mas, ao mesmo tempo, mais retórica que operacional.

ANUNCIAR austeridade não é praticar austeridade. A política de Meirelles anuncia cortes e ao mesmo tempo dá aumentos absurdos a oito categorias no último dia do ano, categorias das mais bem pagas do funcionalismo federal. Esses aumentos para categorias burocráticas são incompatíveis com 12 milhões de desempregados na economia produtiva. Ao mesmo tempo, nada se faz, nada se fez e nada se pensa em fazer em relação a 14.000 supersalários, alguns de 190 mil por mês. Como pedir austeridade a quem não tem nenhum salário? Basta consultar o site de transparência do governo federal para ver os supersalários, não só da ativa mas também de aposentados. Pedir austeridade como, com base em que linha moral?

Foi muito engraçado com uma pitada de trágico ver os “economistas de vitrine” e seus entrevistadores sem saber o que falar em novembro e dezembro quando seus prognósticos de “com a restauração da confiança virão os investimentos e depois o crescimento” afundaram na realidade das estatísticas de aumento do desemprego, fechamento de lojas e empresas, queda contínua do PIB e da produção industrial. Não sabiam o que falar nem eles e nem seus jornalistas de apoio na mídia fiel ao “economismo de mercado”, cuja fonte de saber são os departamentos de economia de bancos, os mesmos que informam o Boletim FOCUS.

O mais impressionante é a secura de nomes: vinte no máximo, SEMPRE OS MESMOS, da PUC Rio, do INSPER, FGV, alguns fósseis da FEA da USP, muitos com títulos no exterior.

Ninguém da Federal Fluminense (Ricardo Carneiro,Theotonio dos Santos, Niemeyer de Almeida), da Unicamp (Frederico Mazzuchelli), da ala mais pensante da USP (Laura Carvalho, Lenina Pomeranz, Sergio Buarque de Holanda Filho)), Ufpe (Tania de Araujo), PUC-SP (Rosa Maria Magalhães), da Universidade Greenwich de Londres (Tomas Rotta) salva-se Antonio Correa de Lacerda, professor e com vivência industrial, assíduo no Jornal da Cultura.

Porque os correspondentes internacionais da GLOBONEWS não fazem entrevistas com economistas sólidos e inovadores, nomes como Dani Rodrick, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, que tem visões globais e atualizadas de economia sem serem porta vozes do mercado financeiro como são os “economistas de vitrine”, viciados em bordões ?

O Brasil é um dos países onde menos discussões sobre política econômica acontece, tanto na mídia como nos organismos de formulação de políticas, como o Poder Legislativo.

Na presidência de Aldo Rebelo, na Câmara dos Deputados, coube-me organizar um Seminário sobre Política Econômica. Convidamos grandes nomes de várias escolas, houve um vivo debate de diferentes visões de economia, porque isso não se repetiu ?

A Senadora Gleisi Hoffmann preside a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, poderia convidar grandes economistas estrangeiros para conferências, penso que viriam só pela passagem e hotel tratando-se de um órgão de interesse público, o debate poderia ser entre esses nomes e economistas brasileiros de escolas diversas.

Isso está faltando no Brasil e é urgente. Está em jogo o futuro de um grande País, hoje manobrado por alguns cérebros de um prato só, uma pobreza intelectual chocante.

Austeridade se pratica sem precisar de emenda constitucional, precisa de gestão “mão na massa” tipo Amador Aguiar no Bradesco, controlando lápis e papel. Quando Janio Quadros foi Governador de SP, pegando um Estado quebrado, fez esse tipo de administração e criou um enorme superávit, o Estado passou a comprar muito mais barato porque com o pedido já vinha a Nota de Empenho que equivalia a um cheque, não havendo atraso no pagamento, todos queriam vender para o Estado e vendiam a bons preços. Janio não precisou de nenhuma lei, bastou agir.

No lado do crescimento empenhar um trilhão de Reais em 40 meses, R$25 bilhões por mês nem faria cócegas na inflação e criaria eficiência econômica a mais de 1.000 obras paradas e outras novas que o Brasil precisa, gerando milhões de empregos e tirando a economia do abismo em que se encontra.

Está faltando massa cerebral na política econômica brasileira, rasa como um pires de café, afinal o que está em jogo é o destino de um dos maiores países do mundo. Nessa política econômica há carência de grandeza à altura do País-continente.

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