Pesadelo

Não sei se vocês já foram apresentados assim: “Paulo, apesar de gente boa, tem uma forma de pensar muito diferente da nossa, é simpatizante da esquerda”.

Há muito eu havia  me acostumado em ser minoria, por minha visão política e social e forma de encarar a vida. Aos poucos, com o desmoronamento da ditadura e o agora esquecido fracasso das políticas econômicas neoliberais, fomos deixando de ser micos leões dourados, bichos em extinção. E os “brontossauros” passaram a esconder-se em cavernas.

Há pouco tempo me vi retornando aos tempos obscuros da ditadura. Fui novamente apresentado como um animal exótico no meio dos felizes “brontossauros” de direita que se consideram politicamente “normais”. Não se consideram uma anomalia em um país pobre e desigual como o nosso. E temos no grupo uma fauna completa de “normais”: bolsonarianos, libertários, neoliberais, nova direita orgulhosa, viúvas da ditadura e por aí vai. Não passam, em sua maioria, apesar do suposto verniz “democrático”, de “bonecos de ventríloquo “. As frases são as mesmas, a forma estreita de pensar reflete o texto padrão do Jornal Nacional. Como são muitos, se sentem em casa. Estão cada vez mais à vontade. Como se o mundo tivesse regredido milênios.

Na ditadura a censura vinha de fora do grupo, do medo que todos tinham de serem denunciados, das escutas ilegais. O sistema foi aperfeiçoado e, agora, a censura vem dos próprios colegas de reunião, de almoço e de jantar. Eles se acham com direito de repetir os maiores absurdos que ouviram na TV, leram nas redes sociais ou nos jornais, quando lêem jornais. Quando alguém os contesta, aparecem os supostos isentos e solicitam que se mude o assunto para não “estragar a harmonia do grupo”.

Preste atenção.

Em algum momento, nesta mesma noite ou no futuro, o suposto isento sairá do armário e se revelará um “brontossauro” tão engajado quanto o “boneco de ventríloquo”. Cairá a máscara da neutralidade e a fingida isenção será esquecida.

Eu pensava que este comportamento era restrito, característico de determinados grupos que eu frequento. Mas, pelo relato colhido na internet, escrito por Nelson Barbosa, parece que a “febre amarela”, iniciada em junho de 2013, tornou-se uma epidemia. Leia o texto abaixo. Reflete bem minha experiência:

“Ontem, conversava com uma sobrinha sobre as dificuldades dos nossos tempos e ela me contou que numa simples aula de autoescola o professor começou um discurso enviesado de antipetismo e de deturpação da realidade política claramente pontuada por uma ignorância sem par do processo histórico da ditadura etc. Segundo o tal professor, sua mãe, que tem a mesma idade da Dilma, não teria sofrido tortura nenhuma na época da ditadura porque “não fez nada de errado” e, portanto, não foi “merecedora” de nenhum ato correcional violento via tortura etc. e tal.

Segundo minha sobrinha (35 anos), a classe, composta na maioria de pessoas bem jovens, ouvia passivamente aquela pregação até que ela, já indignada, se manifestou contestando o argumento do professor mostrando-lhe que sua visão era equivocada ao considerar aquela ideia de “ordem” militar como o padrão “correto” das relações sociais etc. e tal.

Claro que o ambiente da aula entrou em ebulição e, como sempre acontece, o assunto foi desviado com a clássica intervenção do “aqui não é lugar e o momento para tratar disso” (ou seja, nunca é o lugar e o momento de se contestar isso, porque o que o professor fizera foi criar ali o lugar e o momento para exercer a sua ideologia torta e comprometida).

Falávamos justamente da importância e da necessidade de não recuarmos na defesa de nossos pontos de vista, ainda que os ambientes nos pareçam hostis ou “inadequados” (pense, nunca o são para os que defendem o mainstrean).

Pois é isso mesmo: não podemos ter vergonha de defender pontos de vista conflitantes, porque alguma resistência é preciso contra essa mídia hegemônica, essa religião castradora, e essa conduta classe média de servilismo e passividade que a tudo processa sem critérios ou questionamentos.

Os jovens… Bem, algo é preciso fazer por eles.
Nelson Barbosa”

Fique com o vídeo da música Pesadelo, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós e não se esqueça: se hoje a força é deles, um dia ela é nossa.

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