Ressentimento no Brasil atinge cumes constrangedores, por Mário Sérgio Conti

PublicadoFolha de São Paulo, em 07/02/2017

A mídia e os políticos “profissionais” são mestres em seletividade, eufemismos e tergiversação. Ambos sonham em definir as pautas da vida nacional e só comunicam e enxergam o que lhes interessam.

Neste admirável mundo novo em que vivemos só existe o que foi veiculado, por qualquer dos meios disponíveis. A realidade transforma-se na realidade pautada e publicada. Quem mais pode, mais comunica. Quem mais comunica, mais define a realidade que será selecionada para você acreditar que é a única que existe.

Nesta realidade fabricada, proliferam os eufemismos. Sempre com o objetivo velado de preservar a ideologia dos senhores donos dos oligopólios de fabricação de realidade. Golpe de Estado transforma-se,  como num passe de redação, em impedimento constitucional. Fascismo aberto é chamado de intolerância. Ódio transforma-se em ressentimento. Estratagema para proteger malfeitores transforma-se em promoção por bons serviços prestados ou nomeação de profissionais experientes.

Mas quando interessa, eles sabem carregar nas tintas e demonizar seus inimigos. Chamam manifestantes de vândalos, políticas de distribuição de renda de “populismo”. Nunca vi chamarem políticas de concentração de renda, subsídios, desonerações e isenções tributárias de “riquismo”.

Mário Sérgio Conti, sempre cauteloso em agradar gregos e troianos, como convém aos patrões da Folha de São Paulo e da GNT, chama ódio de ressentimento no título do seu artigo. Escondido no meio do texto usa a palavra correta: ira. Não lhe convém usar esta palavra no título do artigo. Ele sabe quais são as regras da casa onde trabalha.

Não, prezado Mário Sérgio, médicos não “insuflaram agressões bestais”. Médicos cometeram infração à ética médica e, provavelmente, crimes. Um vazou o prontuário da paciente e outro sugeriu um procedimento médico para matá-la. Ora, isto não é mero ressentimento, isto não é apenas “insuflar”. Isto é manifestação, clara e explícita, de ódio. Conheço um pouco do Código Penal, mas não tenho conhecimento jurídico suficiente para avaliar se foram cometidos crimes. Mas sei, está evidente, que os doutores foram além do simples ressentimento e da ação de insuflar. Ultrapassaram quaisquer limites toleráveis e cruzaram a linha que separa a humanidade da barbárie.

Insuflar é outra coisa. Insuflar é o que a mídia faz todos os dias contra seus inimigos selecionados, quando está de bom humor, exercendo rotineiramente o seu ofício.

Apesar das críticas, o texto de Mário Sérgio Conti tem muitos pontos positivos e merece leitura atenta. Não sei se as carapuças cairão nas cabeças onde devem cair. Mas fica o alerta. Leia abaixo.

Paulo Martins

Ressentimento no Brasil atinge cumes constrangedores, por Mário Sérgio Conti

PublicadoFolha de São Paulo, em 07/02/2017

Países de classe média grande são relaxantes, diz uma personagem de “Toni Erdmann”, comédia que estreia na quinta-feira (9). Concorrente ao Oscar de filme estrangeiro, ela vai do Primeiro Mundo (Alemanha) ao finado Segundo (Romênia) para mostrar algo da classe média europeia.

Um pai e uma filha encarnam a pequena burguesia. Professor de música para crianças, o patriarca pouco trabalha. Usufrui do Estado de Bem-Estar social do pós-guerra e dos costumes libertários de 1968. No início do filme, ele se fantasia de zumbi; é um morto-vivo.
Já a filha é uma executiva do capitalismo turbinado duas décadas depois, a partir do fim da Guerra Fria. Hipercompetitiva no seu blazer preto, ela demite em Berlim, Bucareste ou Cingapura. Tanto faz onde porque o Primeiro, o Segundo e o Terceiro Mundos são trincheiras da globalização, na qual ela é um uber-drone.
A moça é um produto torto de 68. Pôde entrar no mercado de trabalho porque há meio século começou uma vaga feminista, que no entanto ela despreza. Para empregar o seu jargão: está focada na carreira e performa. Usa drogas, sexo e afeições quando a ajudam no trabalho.
A filha acha o pai arcaico e irresponsável. Ele a considera cruel consigo mesma e com os outros. Na penúltima cena, a jovem está nua e o velho é um monstro peludo. Na última, a reconciliação é ambígua.
Como aqui a classe média é minoritária e os pobres preponderam, o Brasil não é relaxante. O país está ainda mais tenso porque é difícil encontrar trabalho, e a pequena burguesia acha que o PT roubou os seus empregos. A ira impera.
O ressentimento atinge cumes constrangedores. Uma trabalhadora que nunca fez mal a ninguém, Marisa Letícia, agonizava, e um panelaço irrompeu em torno do hospital. Médicos, blogueiros e publicitários insuflaram agressões bestiais. O afeto que se encerra no peito nacional se fez ouvir.
A cerimônia que os eleitos pela classe média (e não só por ela) protagonizaram dentro do hospital, porém, não foi uma mera trégua. Foi uma conciliação apoteótica, e tão mais grave porque feita à beira de um leito de morte.
Cleptocratas de todos os partidos, o Planalto e o Congresso em peso, o atual presidente –e dois ex– foram todos muito além do protocolar. Propalaram em alto e bom som seu apreço e afeto pelo adversário da véspera, Lula.
Uma explicação para tal congraçamento se encontra no “homem cordial” de Sérgio Buarque: no Brasil, a nata dominante faz com que sentimentos se sobreponham à fria letra da lei, de modo a beneficiar materialmente o seu clã, a sua casta e a sua classe.
Lula foi além da cordialidade na oração fúnebre que fez diante dos despojos da mulher. Disse quem são, de fato, seus inimigos: “os facínoras que levantaram leviandades contra Marisa”. Ou seja, Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato.
Ao divulgar a gravação de um telefonema entre Marisa e um filho, que não falaram nada de relevante, mas na qual ela disse um palavrão, o juiz cometeu uma baixeza. Ao processá-la, para atingir Lula, golpeou abaixo da linha da cintura.
Como não querem magoar a classe média, os cleptocratas se calaram. Na morte de Marisa, contudo, ficou evidente que preferem Lula a Moro. Não querem ser presos e receiam a humilhação de suas famílias.
Para Lula, para o que sobrar do PT, para a esquerda toda, resta o mais difícil: reconquistar a confiança dos trabalhadores e da classe média.

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