Pureza, neutralidade, ideologia … (Revisado em 25/03/2017)

Marilena Chauí cita em uma de suas palestras que Baruch Spinoza, filósofo que nunca li, dizia que numa discussão as pessoas apresentam suas conclusões sem apresentar suas premissas. Aprendi, ao longo desses meus quase 65 anos, a ler nas entrelinhas dos discursos pretensamente neutros e a adivinhar premissas, propositalmente escondidas ou disfarçadas. Nem sempre consigo, claro.

Compartilho, a seguir, dois textos que apresentam pontos comuns sobre a suposta neutralidade científica que alguns insistem em julgar-se portadores, em contraponto com os seus contrários chamados, com certa conotação pejorativa, de ideológicos.

Não percebem que, como muito bem afirma Flávio Antônio da Cruz, autor do primeiro  texto apresentado abaixo, “nada escapa à ideologia”.

O segundo texto é parte do prefácio do livro História do Pensamento Econômico – Uma Perspectiva Crítica, de E. K. Hunt, publicado pela Editora Campus. O autor deixa claro não ser possível em economia dissociar inteiramente o elemento cognitivo, científico, do elemento emotivo, moral ou ideológico.

“Direito sem ideologia é o direito da conservação do status quo”, afirma Flávio da Cruz. Igualmente, uma economia política acrítica, é a economia das conclusões inconsistentes e das premissas escondidas, sem conexão com a realidade que pretendem explicar, e a economia da manutenção do poder em mãos do poderoso econômico, afirmo.

Leia os dois textos abaixo e, a partir de hoje, desconfie das receitas de bolo e das conclusões soltas no ar, especialmente nas ciências sociais e, mais especificamente, em direito e economia, as armas modernas de tomada e manutenção do poder.

“Ser sem ideologia é o ser da ideologia de quem manda”

Paulo Martins

Texto 1:

“Há quem imagine que haja direito puro. Direito sem ideologia. Estudo das estruturas normativas… Há quem pense que Direito é com uma escada… e passa a estudar, de forma analítica, cada um dos seus pretensos degraus, classificando-os segundo esses ou aqueles juristas de plantão…, sem se perguntar sobre que massa de corpos a escada se sustenta e para que destinos ela orienta os passos…. Há quem imagine que Direito seja ciência… Cuida-se, não raro, de uma tentativa de se suspender – Aufhebung ou epochè, diriam os fenomenólogos – as perguntas realmente relevantes…

Muitos deploram o caráter altamente ‘ideológico’ das teorias críticas, sem perceber que nada escapa à ideologia. Não notam que ‘direito sem ideologia’ é o direito da conservação do status quo. Ser sem ideologia é ser da ideologia de quem manda. Assim, talvez nada seja mais danoso para o discurso jurídico do que a pretensão de cientificidade que muitos ingenuamente ainda hoje alimentam…

Sem dúvida que a tal cientificidade pode se traduzir em um compromisso efetivo com a probidade intelectual: não dizer qualquer coisa de qualquer coisa. Isso é imprescindível. Mas, a despeito dessa vantagem, é também fato que, em temas valorativos, fazer ‘ciência’ pode significar simplesmente o fornecimento de estruturas argumentativas para que tudo continue como sempre foi”.

Texto 2:

“O escritor de uma história do pensamento econômico deve, acima de tudo, ter alguns princípios de seletividade.

Durante os últimos 200 anos, muitas centenas de pensadores econômicos escreveram muitos milhares de livros sobre teoria econômica e capitalismo. O historiador contemporâneo, no espaço de um livro, pode, portanto, apresentar somente um limitado número das mais importantes ideias dos mais importantes pensadores.

Entretanto, “importância”não é uma categoria científica sobre a qual todos os historiadores do pensamento devem estar de acordo.

Todo historiador deve ter alguns critérios de seletividade.

Quando se examinam todos os livros publicados sobre a história do pensamento econômico, tem-se a impressão de que os costumes e a tradição são os critérios principais. As ideias incluídas nas histórias do pensamentos uma geração parecem repetidas, com poucas mudanças, pela maioria dos historiadores da geração seguinte.

É difícil saber até que ponto a semelhança é simplesmente uma questão de os historiadores reafirmarem o que encontraram em fontes secundárias anteriores ou uma consequência de um conjunto comum de critérios de seleção.

Este livro, entretanto, é muito diferente de qualquer outra história do pensamento já publicada. Assim, é importante dar ao leitor alguma ideia dos pressupostos intelectuais fundamentais implícitos em nossos critérios de seleção. Os critérios aqui utilizados derivam de três crenças gerais.

Primeiro, acreditamos que as teorias sociais e os processos sócio-históricos são interligados. Teorias são baseadas em eventos e circunstâncias sociais em curso, do mesmo modo que deles surgem, refletem-nos e procuram explicá-los. Assim, em certo sentido, pode-se dizer que as teorias sociais são produto das circunstâncias econômicas e sociais em que são concebidas. É igualmente verdadeiro, entretanto, que os seres humanos agem, criam, formam e mudam essas circunstâncias econômicas e sociais com base em ideias que têm sobre essas circunstâncias. Consequentemente, pode-se concluir que as circunstâncias sociais e econômicas são produto de ideias e teorias sociais. Desse modo, embora o livro trate da história do pensamento econômico, foram incluídas várias descrições breves de alguns aspectos de história econômica e social que serão úteis para melhor compreender as ideias discutidas.

Em segundo lugar, acreditamos que, enquanto as mudanças sociais e econômicas são contínuas e enquanto o capitalismo de hoje é, em inúmeros aspectos, diferente do capitalismo do final do século XVIII, existem importantes características institucionais básicas no capitalismo que, através de todas essas mudanças, permaneceram tão óbvias e marcantes quanto as próprias mudanças. Portanto, na medida em que os economistas se preocupam com essas características fundamentais do capitalismo, as muitas diferenças entre os pontos de vista dos economistas do final do século XVIII e do século XIX repetem-se, hoje, nos escritos dos economistas contemporâneos. Consequentemente, ao escrever este livro, tentamos lançar luz sobre a natureza das controvérsias contemporâneas em torno da teoria econômica, examinando seus antecedentes históricos. Isso afetou a seleção de teorias a a examinar. Por exemplo, a maioria das histórias do pensamento econômico não discute as ideias de Thompson, Hodgskin e Bastiat. Nós as incluímos, porque acreditamos serem exposições claras e convincentes de pontos de vista que, de uma forma apenas ligeiramente modificada, são muito importantes hoje. Da mesma forma, as ideias de Hobson, Luxemburgo e Lênin têm sido, geralmente, ignoradas na história do pensamento econômico. Contudo, para nós, suas ideias representam contribuições significativas para a compreensão dos debates contemporâneos sobre as implicações da globalização.

Em terceiro lugar, acreditamos que todos os economistas estejam e sempre estiveram essencialmente comprometidos com questões morais, políticas, sociais e práticas. Consequentemente, seus escritos têm tanto um elemento cognitivo, científico, quanto um elemento emotivo, moral ou ideológico. Além do mais, esses dois elementos não são inteiramente dissociáveis. A investigação cognitiva, científica, é sempre dirigida para certos problemas e questões, e o leque de soluções para essas questões e problemas que qualquer pensador considerará como “legítimas” é limitado. Os valores morais e a visão ideológica do pensador darão a direção de investigação científica, cognitiva, e fixarão limites quanto ao que constituirá o leque de soluções “legítimo”  para este pensador. Além do mais, os valores morais e a visão ideológica do pensador baseiam-se em suas teorias científicas, ou cognitivas, de como a sociedade funciona de fato, e por meio delas são defendidos. Daí, mesmo que conceitualmente possamos, ao menos em parte, separar elementos científicos e ideológicos de uma teoria social, essa separação nunca poderá ser completa. Jamais poderemos compreender completamente o elemento científico, cognitivo, na teoria de um economista, sem compreender, nem que seja em parte, os elementos valorativos e ideológicos da teoria. Neste livro, discutimos ambos os elementos nas várias teorias consideradas.

A terceira crença é, talvez, o que mais marcadamente diferencia este livro da maioria dos outros de sua espécie. Existe, nos meios acadêmicos, uma opinião generalizada de que ciência e juízo de valor são antitéticos. Segundo essa visão, na medida em que juízos de valor se insinuam em um trabalho, ele deixa de ser científico.  Consequentemente, historiadores com essa postura, em geral, veem seu próprio trabalho, na história do pensamento econômico, como livre de juízos de valor e apresentam os escritos daqueles teóricos que lhes agradam como se fossem também isentos de juízos de valor. Analogamente, teóricos de quem não gostam, em especial Marx, são apresentados como tendo juízos de valor em seus trabalhos, o que (ao menos implicitamente) diminui o valor científico desses trabalhos. Na minha opinião, todos os teóricos, todos os historiadores e todos os seres humanos ( inclusive eu mesmo, é claro) têm valores que permeiam de modo significativo todos os esforços cognitivos. Assim, quando discuto os valores e os aspectos ideológicos dos escritos dos vários teóricos, não há qualquer intenção de induzir a noção de que o fato de ter valores, per se, sirva de base para criticar um pensador. Acredito que a tese de que alguns teóricos são “isentos de valor” seja uma tentativa de iludir os outros ou uma auto-ilusão. Os julgamentos não deveriam se basear no fato de um pensador ter ou não valores – já que todos eles têm – mas, sim, na fundamentação concreta da natureza desses valores. Por essa rezão, discuti alguns valores subjacentes às teorias apresentadas e conclui este livro com a exposição de alguns dos meus valores que afetaram a elaboração deste livro.

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