MBL e a cortina de fumaça

Post publicado na página do Facebook de Alexandre Valadares

A incursão agressiva dos militantes do mbl na ex-posição de arte queer, instalada na galeria do santander, me deu a impressão de que a última preocupação do movimento é proteger a alma religiosa e a higidez moral da família brasileira. O ato teve outro objetivo: foi, sobretudo, uma estratégia de captura ideológica, através da qual o mbl, que é ultraliberal e não conservador, tentou outra vez projetar-se como representante de uma “maioria silenciosa” da população, fortemente identificada com os valores conservadores. A estratégia se tornou bem-sucedida graças à repercussão que o caso tomou após a decisão do banco de encerrar a mostra. Mas a atitude do santander não foi um recuo: foi um alinhamento.
O que interessa ao mbl e seus congêneres (e esta é a razão pela qual são financiados) não é encampar a agenda do fundamentalismo religioso – refletida, como política, no projeto de desconstrução do Estado laico e, como ideologia, na propagação de uma doutrina que explica a pobreza e outras questões sociais como consequências das escolhas morais dos indivíduos –, mas se apropriar, como porta-vozes, da grande capacidade mobilizadora que a radicalização moralista tem. A agenda do mbl é o fundamentalismo de mercado. A linha-mestra dessa ideologia é a naturalização das desigualdades, o princípio segundo o qual as desigualdades socioeconômicas são legítimas na medida em que exprimem as diferenças individuais de mérito e vontade.
Ora, a agenda ultraliberal não é fácil de ser engolida pela grande massa trabalhadora que se vê constantemente tolhida entre a necessidade de ganhar o pão do dia seguinte e a impossibilidade de ganhá-lo fora de um regime de trabalho extremamente duro e abusivamente desproporcional. Mas, embrulhado nos valores conservadores, misturado a eles, o ideário liberal pode tornar-se palatável. O amor à ordem, por exemplo, uma paixão conservadora típica, sempre será funcional a um projeto de sociedade ultraliberal, marcado pela hierarquia rígida (a dinâmica de acumulação tende a tornar intransponível a distância econômica entre os indivíduos), pela desigualdade acentuada e, por isso, pelo fortalecimento do Estado policial como condição orgânica desse tipo de sociedade.
Esses projetos não se combinam, todavia, sem tensões, e as hostilidades recentes entre mbl e bolsonaro são reflexo disso. O mbl está disputando as bases populares, e não vê qualquer problema em endossar o discurso religioso e bajular figuras como marco feliciano e magno malta para atingir esse objetivo. Os caras não estão brincando.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s