A roda que não rodou e o polo que desandou

A roda que não rodou & o polo que desandou

(bastidores do processo eleitoral)

Por Cláudio Guedes

No início do ano, um movimento articulado por intelectuais e políticos muito próximos ao PSDB e ao PPS, intuindo o provável fracasso dos tucanos no processo eleitoral, buscou a constituição de um polo centrista (sic) reformista e democrático. Fizeram articulações, lançaram documentos e alguns atos que juntaram FHC, Roberto Freire, Paulo Hartung, Rose de Freitas e outros. Entre os intelectuais ligados ao movimento estão Marco Aurélio Nogueira, Alberto Aggio e Hubert Álqueres.

O objetivo era, mais uma vez, com a desculpa de evitar soluções extremadas para o país, enfiar goela abaixo de incautos e ingênuos a candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin, o tucano da vez, agora em novo figurino, não mais de social-democrata mas de centrista equilibrado.

Os intelectuais em torno do movimento são os mesmos que nas eleições passadas, nas quatro últimas, se moveram e lançaram manifestos de apoio ao tucano escalado para a disputa. Em 2014, foi um manifesto patético de apoio ao corrupto e moleque Aécio Neves, então presidenciável do PSDB.

Este ano, remaram, remaram, e acabaram na praia desolada onde jaz a quase carcaça de um suntuoso veleiro, com o casco perfurado, onde hipocrisia, empulhação e oportunismo tremulam como bandeiras amareladas nos mastros apodrecidos.

Ontem, 22/09, no Estadão, uma das lideranças intelectuais do movimento, o professor titular de ciência política da UNESP/SP, Marco Aurélio Nogueira, escreve um necrológico da política nacional e brada: incompetência geral!

Sim, sobrou para todo mundo. O fracasso do polo/roda democrática, e da sua estratégia malsucedida para hegemonizar o processo eleitoral, virou incompetência geral.

Algumas verdades, muitas inverdades e muita imaginação, uma sopa farta de palavras, para não enfrentar as questões realmente crucias da atual conjuntura política.

Para o PT sobraram as palavras de ordem de sempre, com pelo menos uma inovação: o ressurgimento do partido seria obra do “imperialismo religioso do lulismo” que se junta à velha catilinária da “mitificação popular de Lula”.

Hehehe!

Já vi de tudo contra o PT – partido do qual não faço parte, nem nunca fiz – mas essa de “imperialismo religioso” é novidade. Bom, ganha uma viagem à Bahia, com passagens pagas e direito a uma casquinha de sorvete de coco na Ribeira, quem me explicar o que significa.
Quanto à “mitificação popular de Lula”, não seria mais fácil e honesto simplesmente reconhecer que Lula possui uma identificação enorme junto à população mais pobre e às regiões mais carentes do país por causa dos programas de inclusão social concebidos e efetivados nos seus governos? Qual a dificuldade de um mestre em ciência política reconhecer este fato objetivo da realidade?

Na crítica dura ao PT, diz Marco Aurélio que o partido se perdeu “inebriado pelo desejo de vingança” e “pela pretensão de comandar com mão-de-ferro o campo progressista”? Essa coisa de desejo de vingança parece mais eco de novela mexicana, o que talvez esteja no radar das tardes solitárias do professor. E onde viu Marco Aurélio a pretensão do PT em comandar o campo progressista? Não vi, de real, nada que denunciasse tal desejo, muito pelo contrário. O PT, de forma apropriada, apenas usou o seu direito democrático de indicar um candidato próprio às eleições presidenciais. Direito respaldado no fato provado de que é o partido de preferência de 25% do eleitorado brasileiro, sendo de longe o maior partido nacional em termos de filiados ativos e um dos maiores – é a maior bancada na Câmara dos Deputados – em número de parlamentares. Não imagino porque este conjunto de fatos, tão objetivo, possa passar despercebido de um professor de ciência política. Então um partido com tal envergadura não possui o direito de disputar as eleições com representante próprio? Por que não?

Mais adiante, ao tratar a questão Bolsonaro, lemos a seguinte afirmação “candidatura pouco qualificada e alinhada com a autocracia regressiva”. Que beleza. Então o ex-capitão, um misógino, truculento, autoritário, defensor da tortura e de torturadores é generosamente tratado como uma “candidatura pouco qualificada”? Sei. Que padrão.

Aliás padrão que se repete ao comparar Bolsonaro com Haddad: para o mestre, “não são equivalentes”, um é autoritário o outro não é, mas ambos “estão atados por um mesmo tipo de cegueira e fanatismo”. Haddad cego e fanático? O professor pode odiar o PT, Lula e petistas, mas deveria ser um pouco mais rigoroso ao avaliar um colega, um professor, um doutor pela USP, qualificado, que foi um dos grandes ministros da educação do país e um bom prefeito de São Paulo. Onde, nos altos cargos públicos que ocupou, durante onze (11) anos – sete (7) como ministro da educação e quatro (4) dirigindo a maior cidade do país, uma das maiores do mundo -, Haddad demonstrou fanatismo e cegueira? O professor não cita um único exemplo. Fica na acusação leviana. Qual a aderência à realidade da avaliação de Marco Aurélio sobre Fernando Haddad? Nenhuma.

O professor afirma ainda, em bom som – como gostam os donos do jornal para o qual escreve – que Haddad não critica os “esquemas de corrupção associados ao modo lulista de governar”. Afirmação vulgar. Os esquemas de financiamento de partidos e eleições, que vigoraram no período petista, eram os mesmos que levaram o PSDB ao governo central alguns anos antes e que mantiveram a longa hegemonia, de mais de 20 anos, dos tucanos no Estado de São Paulo – recursos repassados por empreiteiros e fornecedores do estado. Os mesmos que financiaram as campanhas de todos os grandes partidos que, nos últimos 30 anos pelo menos, disputaram o poder no país. O “modo” lulista de governar, como hoje é reconhecido até por adversários duros do PT, reforçou e deu liberdade à atuação dos orgãos de fiscalização do Estado, além de autonomia à Policia Federal e ao Ministério Público para investigarem denúncias de corrupção de agentes públicos.

Para Marco Aurélio chegamos ao esgotamento de uma época democrática. Todos são culpados por esta situação. As vítimas e os algozes. Nenhuma palavra sobre a liberdade política e os avanços enormes nos costumes e na defesa das minorias conquistadas nos governos petistas. Nada. Nenhuma palavra sobre a violência do impeachment farsesco de uma presidente da República eleita pelo voto popular. Nenhuma palavra sobre o processo judicial contra o ex-presidente Lula, marcado por controvérsias, ações do juízo e do MP em flagrante desrespeito ao CPP & às leis e com tramitação com prazos singulares e destoantes, a indicar um tratamento “especial” ao então réu. Nada.

Todos são culpados. Os perseguidos, os linchados pela mídia conservadora, os que sofrem o peso draconiano de uma justiça parcial e politizada e os que se beneficiaram dessa situação. Todos igualmente culpados.

Por fim, como não poderia ser, vaticina o emérito professor, na sua peroração: “a sociedade abandonou os políticos à própria sorte e os políticos, sem apoio social e sem partidos dignos do nome, perderam as referências”. Talvez o professor é que tenha abandonado a ciência e tenha virado as costas para o mundo real. O líder petista preso, enjaulado, em decorrência de um processo onde farsa e parcialidade se juntaram, não parece ter sido abandonado pela sociedade. Esta demonstrou, em inúmeras pesquisas, que o elegeria para comandar o país no próximo quadriênio se solto estivesse. E o Partido dos Trabalhadores (PT), hoje com mais de 2 milhões de filiados e com a preferência explícita de 1/4 do eleitorado brasileiro, não é um partido digno de nome? O que é um partido digno de nome para o ilustre docente?

Marco Aurélio Nogueira, do alto de sua cátedra de ciência política, não se permite enxergar essa realidade. E o cego é Fernando Haddad.

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