Como é que chegamos nesta situação, Manuel?

Compartilho texto de Reginaldo Moraes, copiado do mural de João Lopes, que não dorme. Paulo Martins “Como é que chegamos nesta situação, Manuel? O cara vive no sufoco. Já dormiu mal, deram-lhe uma pisada no trem, chegou cansado no trabalho, problema, cobrança, boato de demissões. Um inferno, à beira de um ataque de nervos. Está no meio de uma correria quando alguém grita: “Manuel, vai prá Madureira que sua mulher sobreu um acidente.” Meu Deus! Sequestra um taxi e berra: toca prá Madureira! Cinco minutos depois baixa o santo na porta-bandeira: “não me chamo Manuel, não moro em Madureira e não sou casado, o que é que eu estou fazendo aqui?” A estória é apenas um pretexto para lembrar a desgraça que produzem as situações de extrema tensão. A insegurança, a precarização da vida, a sensação de que existe um impasse permanente, sem luz no fim do túnel. Daí, a percepção da realidade se descontrola, a identidade se dilui: quem sou eu? Onde é que eu quero chegar? Esta é a situação ideal que um torturador deseja para seu prisioneiro: que ele esteja tão confuso que não apenas responda às perguntas, mas se disponha a cooperar completamente. E esta situação de interrogatório virou ciência aplicável a grupos humanos, a coletivos inteiros, como estratégia de controle social. Certa vez, um guru neoliberal disse, quando ainda estavam por baixo: nosso trabalho é preparar nossas ferramentas, nossas ideias e programas, treinar nosso pessoal. A crise vai aparecer e nós vamos aproveitá-la. E disse a frase chave: uma grande crise é um transtorno tal que aquilo que parecia inviável e inaceitável aparece para as pessoas como inevitável e desejável. Faltou acrescentar: você pode não apenas se preparar para a crise, mas preparar a crise, isto é, criar condições para que ela estoure. Agora se lembre do que vivemos nos últimos cinco anos, desde a segunda metade de 2013. No começo daquele ano, a oposição conservadora estava em desespero. Temia perder a eleição seguinte ainda em um primeiro turno. Afinal, o país enfrentara com sucesso a crise mundial e seguia com emprego, renda, oportunidades educacionais em expansão… Mas a direita tirou das manifestações de junho as lições que nenhuma esquerda tirou. Ela percebeu que podia domesticar e conduzir as ruas – como de fato conseguiu fazer, na segunda parte daquelas manifestações, expulsando a esquerda do controle. E começou a organizar seus ‘grupos de base”. Ao mesmo tempo, a inteligência norte-americana (NSA) ampliava a espionagem sobre pontos importantes (o governo federal, a Petrobrás). Em fevereiro de 2014 se lançou a campanha jurídica-midiativa-political chamada Lava-jato. Seu conômetro era preciso: ir em um crescendo até outubro, para virar as eleições. E quase deu certo. Por um triz, precisaram redesenhar o roteiro e adicionar novas fases ao golpe. Desde aquele momento, o país vive em um impasse permanente, o governo não governa, o judiciário e o congresso cercam o executivo federal, com a ajuda dos “governadores de oposição”. A sabotagem política tem consequências dramáticas para a economia e a sociedade. A mídia constrói o ambiente de ideias e sentimentos necessário para a percepção de uma realidade que ‘não pode continuar assim’. Isto não parou com o golpe, o impeachment. Seguiu adiante. Pessoas “equilibradas”, com vida menos instável e mais informadas podem ter paciência para suportar tal clima. O nosso falso Manuel da anedota não pode. Uma hora ou outra ele vai perder a coordenação de suas idéias e vontades, vai pular no taxi para Madureira, sem nem sequer saber o que está fazendo, no fim das contas. Basta um gatilho, como uma sequência de mensagens malucas e alarmistas. Ele vai entrar na cabine eleitoral e apertar o botão do “Dane-se”. É preciso tirar lições desse passado recente para enfrentar o futuro imediato. Uma dessas lições é perceber como se modelam as percepções e como se constroem as identidades e comportamentos das pessoas. Para isso colaboram pelo menos três tipos de fatores:
  1. As condições da vida material – principalmente a situação de precariedade criada ou ampliada pelas agruras de ganhar a vida.
  2. As práticas de socialização que nos restam – o modo como convivemos com os mais próximos
  3. Os aparatos ideológicos, que educam, informam, confortam e “distraem”: as igrejas, grito de espirito em um mundo sem espírito, e o aparelho da mídia, o reino do info-entretenimento, que modela nossa sensibilidade.
Se não compreendermos como esses fatores produziram o “terremoto” que vivenciamos agora, como ele foi produzido pacientemente, vamos nos desesperar e pensar que tudo é fruto de alguma loucura coletiva irremediável. Mas a loucura tem método, a loucura se produz. Quanto dura e como se altera depende de compreendermos suas raízes. Desesperar, jamais.”

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