O retrocesso discursivo

Artigo compartilhado. Créditos ao final do texto.

Entre os animais, o humano é o único capaz de distinguir (pelo discurso, que os gregos chamavam de “lógos”) o justo do injusto, o bem e o mal (e não apenas o prazer e a dor, como fazem os animais através disso que podemos chamar “voz”).
É graças a esse poder que, para Aristóteles (na Política), emerge a condição para a constituição das famílias e, na comunidade entre estas, das cidades (pólis).
O que aconteceu no Brasil com o golpe de 16, no conluio entre judiciário (lawfare), legislativo (“impeachment”) e mídia (antipetismo), foi a emergência do retrocesso discursivo: quebraram-se quase todos os critérios pelos quais distinguia-se o justo do injusto, restaram a sedução (dos marqueteiros) e a força (através desse inusitado urutu encarnado e de toga, obscuro, etéreo quase como uma nuvem negra pairando sobre as cabeças).
Abandonamos o lógos (pensamento expresso em discurso), e adotamos algo como a “narrativa”, uma espécie de perspectivismo delirante, feito pela mistura alucinada de memes, notícias falsas, ficções, mentiras, cinismo, que não manifestam ideia alguma, código algum, discurso nenhum, mas funcionam como a voz, o grito, a algazarra dos bichos, que os fazem capazes de indicar sensações de prazer (como o da vingança de classe com a prisão ilegal de Lula) e, em especial, de “dor”, como o medo (medo do kitgay, mas medo tb das proscrições por vir), e jamais manifestar o útil e o nocivo.
Pq a voz é apenas indicativa, jamais manifesta pensamento algum.
A partir daí, toda uma inversão de valores embaralhou socialmente maldade e bondade num amalgama perverso guiado pelas vozes grotescas do prazer e do medo.
Nesse caldeirão de inversões e balbúrdia, entregamos o país a bandidos toscos, a loucos e psicopatas, achando que estávamos lutando contra a corrupção, a carestia e o desemprego.
Como se fosse a corrupção a culpada de todos os males (jamais foi). Como se fossem esses os salvadores da pátria (são o contrário). Aqueles que usaram e usam, com sinceridade, a “defesa da família” por argumento para justificar o seu voto em um racista confesso, inadvertidamente fizeram o seu oposto. Não há família que sobreviva incólume no embaralhamento do justo e do injusto, do bem e do mal.
Disso sabem bem os que vivem pelas periferias, no limiar da civilização com a barbárie. Disso saberá em pouco tempo essa classe média subletrada e raivosa que abraçou o antipetismo como a inquisição o herege ou apóstata, mas que logo se verá a si mesma caminhando no seu próprio auto de fé e extermínio. Por enquanto as perseguições são focadas em políticos petistas. Lula é hoje a própria encarnação da injustiça imposta pelos juizes golpistas e seu sistema invertido.
A promessa é de que em mto pouco tempo as proscrições se espalhem pelas escolas e universidades, pelos campos, pelas repartições públicas, sindicatos, pelas redes sociais.
Se não houver uma oposição decidida e feroz, não restará nada que possa elevar a simples voz para a forma discursiva, dialógica, capaz de refutar a animalidade da barbárie econômica, política e social.
Parece exagero?
Hoje, enquanto o biltre que chefiará a república anuncia os disparatados que chefiarão as pastas da saúde, das relações exteriores, da economia, da “justiça” (sim, com aspas terríveis), não acho que se possa ter esperança a não ser na mera sobrevivência biológica do homem que retorna ao mundo animal e que apenas grita ou berra, feito lobo ou cordeiro, sem saber o que falar, sem poder nada dizer.
Do professor de filosofia Sergio Alarcon

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