O analfabeto político e o fascista

O analfabeto político é incapaz de ler a realidade externa aos muros da sua casa. Pode até ser um bom pai, ou mãe, bom filho ou filha, um esposo (ou esposa) fiel e atencioso. De repente, é carinhoso com o cachorro.

O analfabeto político faz caridade no natal, mas é incapaz de entender que fora de casa o mundo é regido por projetos de poder que atendem, sempre, a interesses específicos.

Por isso, o analfabeto político acha que existem governos sem ideologia, que existe educação neutra e imparcial. O analfabeto político quer fazer caridade pra população de Brumadinho, mas votou no candidato que quer destruir o IBAMA, que quer afrouxar a legislação ambiental.

É possível ter título de doutor e ainda assim ser analfabeto político. Conheço muitos, muitos mesmo.

O analfabeto político morreu como homem público.

O analfabeto político não saber ler o mundo. De todas as doenças que afetam a inteligência, o analbetismo político é a mais grave.

Já o fascista é bem diferente do analbeto político. Há semelhanças também.

Tal como analfabeto político, o fascista também pode ser um bom pai, um filho carinhoso e um marido atencioso. O fascista pode ser aquele tio bonachão, que faz churrasco pra família no final de semana.

Diferente do analbeto político, o fascista é capaz de entender a realidade externa à sua casa. Diferente do analfabeto político, o fascista sabe ler o mundo.

O fascista sabe perfeitamente que o mundo é regido por projetos de poder e escolhe, deliberadamente, o projeto que quer destruir o outro, aqueles que ele considera uma ameaça para sua família.

“Família”. Tá aí um valor sagrado para o fascista.

Há muito tempo, na sala dos professores, eu lamentava a morte de um menino pobre, morador do Complexo da Maré. O menino brincava na porta de casa, com um celular na mão. A PM colocou um bala de fuzil na cabeça da criança.

Imaginem isso: uma bala de fuzil na cabeça de uma criança de 6 anos.

Um colega professor, virou-se pra mim e disse: “isso não pode acontecer com o meu filho, nem com o seu. Mesmo que morram alguns inocentes, se for pra matar todos os bandidos, a gente ainda tá no lucro”.

“A gente ainda tá no lucro”.

O fascista sabe perfeitamente que a política de segurança pública num país como o Brasil atende a um projeto de poder, que pretende proteger o proprietários e exterminar os pobres. O fascista sabe ler.

A fala do meu colega professor é a manifestação perfeita do fascista à brasileira. O fascista ama os seus, aqueles que conhece, com quem tem vínculos de sangue. O amor do fascista tem nome próprio. O fascista é incapaz de amar o anônimo, o desconhecido, o gênero humano.

O amor do fascista é concreto, sem capacidade de abstração.

O fascista não ama a humanidade. O fascista só ama a família. A família dele.

De todas as doenças do caráter, o fascismo é a pior delas. Não podemos confundir o fascista com o analfabeto político. É necessário distinguir um do outro.

Com o fascista, não existe pedagogia possível. Para o fascista, só o porrete moral.

O analfabeto político precisa aprender a ler. Nós devemos ensinar.

Por Rodrigo Perez Oliveira

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