O enredo da Mangueira e o “Escola sem partido”

Deixa eu dizer uma coisa importante: eu acho que o enredo da Mangueira não procurou contar a história dos heróis ignorados nas escolas, como li aqui. Não é isso. A maioria das professoras e professores de História não ignoram os personagens que Leandro traz.

Fui um dos professores consultados pelo Leandro para a elaboração do enredo desde o início. Não é segredo porque ele mesmo falou isso em entrevistas. Batemos, por exemplo, um longo papo quando o enredo estava sendo pensado, numa mesa do Bode Cheiroso. Foi uma tarde intensa e de cara fiquei muito impressionado com a ideia do carnavalesco. Trocamos ideias ao longo do processo de elaboração do carnaval e posso garantir: Leandro eu muita coisa produzida na academia, conversou com vários professores, e o resultado está aí.

Desde o início é evidente o seguinte: o enredo não se colocou contra a academia. Ao contrário, o enredo bebe na fonte de estudos acadêmicos da maior seriedade, como, para ficar em um exemplo, os do professor João José Reis sobre a Revolta dos Malês. Além disso, recorre a pesquisadores que, fora da academia, também realizam trabalhos notáveis. É só verificar as referências bibliográficas da sinopse divulgada publicamente. Nenhum de nós, que minimamente colaboramos, embarca no discurso de demonização da universidade pública, como certa moda anti-intelectual pretende divulgar. O enredo da Mangueira existe porque a universidade pública brasileira existe e produz as reflexões que possibilitaram esse desfile.

O enredo em nenhum momento diz que esses personagens estão fora das salas de aula. Pelo contrário. Eles estão nas salas de aula sim, levados por professoras e professores de História do ensino público e privado comprometidos com visões plurais que questionem protagonismos viciados no ensino da História e coloquem o povo brasileiro como sujeito, e não objeto, da sua história.

O último carro da Mangueira homenageava professoras e professores de História, com textos críticos deles sobre personagens consagrados da História do Brasil. A pedido do Leandro, fui que que fiz a ponte, por exemplo, com as professoras que contribuíram com textos sobre a Princesa Isabel e o Padre Anchieta; Thais Bastos e Dani Jardim. Uma da rede municipal do Rio, outra da rede municipal de Magé.

O enredo da Mangueira, imaginado, concebido e desenvolvido por Leandro Vieira é um contraponto, isso está claro desde o início, ao projeto obscurantista do “escola sem partido”. A ideia surgiu ali.

Está longe de ser uma denuncia de que os personagens apresentados nunca são mencionados em salas de aula do Brasil. Pelo contrário: Leandro fez uma grande homenagem a diversos professores e professoras brasileiras que nadam contra a corrente, correm atrás de informações sabe-se lá como, em virtude de inúmeras precariedades, e levam, não sem enormes dificuldades, alguns desses personagens silenciados para a sala de aula, em defesa de um ensino público, universal e plural e do cumprimento da lei 10639. No fim das contas, cada professora e cada professor entram também na galeria mangueirense dos heróis que não estão emoldurados.

Essa foi a grande vitória da Mangueira no carnaval.
Do Luiz Antonio Simas

Compartilhado do painel de João Lopes, no Facebook.

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