A paixão da ignorância: o anti-intelectualismo

Do Psicanalista, escritor e dramaturgo Antônio Quinet!

A paixão da ignorância: o anti-intelectualismo
19 de Abril de 2019

Uma das características do fascismo é o ataque ao pensamento e o estímulo à paixão da ignorância. A destruição da democracia no Brasil – não sou eu que o digo e sim todos os jornais do mundo que publicaram uma morte anunciada – está em curso. Ela começou a ser destruída pela ultra-direita para ser entregue de mão beijada ao ultra-neoliberalismo devastador – ultima flor do discurso capitalista. Uma nova rosa de Hiroshima.

Nós, psicanalistas, também estamos ameaçados. Porque pensamos, simplesmente. Tudo o que é debate, memória, ciência, pesquisa, investigação, história, análise está ameaçado por ser ameaçador à narrativa fascista do pensamento único. Enfim, é o pensamento, com sua diversidade que lhe é própria, que está sendo atacado. E ainda mais a nós psicanalistas, que admitimos, com Lacan, que pensamos onde não somos e somos onde não pensamos. Isso então cria um nó na cabeça deles!

O ignoródio conjuga a paixão da ignorância com a paixão do ódio expressa no ódio ao saber – tendo como resultado o próprio ódio ao saber. Esta paixão da ignorância é vinculada às formas de negação do saber: recalque, desmentido e foraclusão. Essa formas de negação que definem as estruturas clínicas são formas de negação da castração, da diferença sexual que estrutura a diferenças de gozos, negação da heteridade e do real do “não há relação sexual”.

Em suma, são negações da diferença que podem assumir a face de ódio ao saber, cuja estrutura é o ódio a saber do Outro, a saber, da diferença e da diversidade. Assim poderíamos declinar as formas do ignoródio que conjuga:

“Sei que existe, mas não quero nem saber da diferença e odeio quem sabe, quem a expressa e quem me lembra de sua existência” – diz a narrativa neurótica do recalque.

“Sei que há diferença mas ela não deve existir, e graças a meu ódio vou acentuá-la para destruí-la.” – diz a narrativa perversa do desmentido.

“Sei que não há diferença alguma e qualquer forma anômala em que ela por ventura apareça vou eliminá-la e varrer da terra desses vagabundos que odeio”, diz a narrativa psicótica da foraclusão.

É esta última modalidade que parece prevalecer hoje num projeto de governo comandado pelo discurso capitalista de instalar um Estado paranoico com uma moral dos costumes a ser vigiada e punida num governo ultraliberal e de ustra-direita.

A paixão da ignorância se expressa como ódio ao saber, a imposição de um pensamento único e o orgulho de ser burro.

O medo é o co-respondente do discurso do ódio também a ser escutado. O combustível desse movimento de tomada de poder fascista é o ódio e o ataque ao saber. Segundo Eliara Santana, doutoranda da PUC Minas em Estudos Linguísticos, “O combustível (da extrema direita) é o ódio aos opositores, aos intelectuais, artistas, negros, gays, todos acusados de doutrinação ideológica ou subestimados como sub-raça.”

Trata-se do ataque não só às formas singulares de gozar, mas também do ataque à inteligência, da ode à boçalidade, do elogio da burrice. Em nome de quê? Em nome de “CCC”: Controle, Capital e Consumismo.

Trata-se do controle da sociedade escópica digital somado à ideologia de que a vida de cada um é uma empresa a ser gerida para obtenção de lucro e ao empuxo-ao-consumo para que cada um se paramente com as insígnias do poder.

Nessa concepção não interessa que o próximo melhore sua condição social e financeira pois ele será uma ameaça a minha existência avaliada pelas insígnias capitalistas de empoderamento.

A ditadura – sem freios (éticos, sociais, institucionais e legais) do capital com o domínio das grandes empresas e da grande mídia precisa impor um pensamento único – característico das ditaduras – com o consequente ataque à diversidade de pensamento.

Não interessa tampouco que cada sujeito se depare com sua divisão estrutural, nem com seu desejo marcado pela falta que se expressa como sexual e como desejo de saber, duas modalidades do desejo que têm a marca do infantil, como apontou Freud, como curiosidade sexual, que impulsiona a todos a querer saber: do sexual ao mundo.

Essa onda da paixão da ignorância se expressa pela moda do anti-intelectualismo que, nas palavras de Isaac Asimov, “é alimentado pela falsa noção de que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”. Essa onda vai até o o “orgulho se de ser burro”, e assim da mesma maneira que se formaram movimentos como “Gay Pride” e “Black is beautiful” já está havendo um movimento que poderia se chamar “Stupidity Pride”.

Há um grande ataque à linguagem de uma forma geral, na medida em que a narrativa fascista tenta impor uma única significação para as palavras, vociferando memes, metralhando slogans e fake news, martelando injunções e assim promover um “discurso pulvurulento” esquizofrenizante.

Lacan utiliza esse neologismo ao se referir ao discurso do esquizofrênico que entra na Cidade de Troia com seu discurso ‘pulvurulento’, apontando, assim, que os guerreiros que saem do cavalo de Troia têm como armas um discurso que é ao mesmo tempo virulento e pulverizador, referindo-se certamente à fragmentação da fala que ocorre na esquizofrenia e sua resistência, por vezes virulenta, em entrar nos laços sociais.

Assim, o ataque à linguagem na estratégia da extrema-direita atinge a dialética, a contradição e o paradoxo, e as próprias leis da linguagem, que não diferem das leis do Inconsciente: a metáfora e a metonímia. Usam o softpower para destruir e submeter a partir de uso da linguagem de significação única, e tratam os melhores quadros de “marxistas” e sobram os ingênuos, os “softidiots” a replicar asneiras, mentiras e insultos.

É com essa Guerra semiótica, como disse Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça, que se desestruturam diálogos essenciais numa sociedade” (Eugênio Aragão: “o desastre que nos espera”).

A paixão da ignorância é instrumentalizada. Há um ataque em curso ao saber e à razão no Brasil com uma programática bem clara chamada Escola sem Partido – nova forma de lavagem cerebral e falsificação da história – associada ao desvio de verbas das pesquisas nas Universidades, aos artistas, intelectuais e também aos psicanalistas.

A “Escola sem partido” é um movimento que se transformou num projeto de lei para controlar e incriminar os professores que estariam fazendo propaganda ideológica e e doutrinação política com os alunos. É um estímulo à delação de professores por alunos e abre as portas para o controle do Estado da interpretação da história, como por exemplo dizer que o golpe que instaurou a ditadura militar em 1964 no Brasil foi um mero movimento social e que esse período não foi ditatorial.

Ela quer controlar até mesmo de conteúdos científicos, como por exemplo a contestação da concepção darwiniana da evolução da espécie em prol do criacionismo religioso – concepção que vem crescendo no Brasil devido à influência política das igrejas evangélicas e seu apoio expressamente declarado à narrativa da extrema direita que elegeu Bolsonaro.

O atual presidente da república chegou a enunciar que “todo eleitor tem diploma de burro” e declarou em forte tom antes das eleições do segundo turno que se não fosse vencedor das urnas é porque teria “havido fraude”, já deixando de sobreaviso seus eleitores para tomarem as ruas com protestos caso isso acontecesse.

Só que não aconteceu, ele foi, com todas suas manobras, eleito pelo sufrágio universal.

Esse episódio só desvela o quanto a paixão da ignorância está associada à violência simbólica que pode levar um grupo a se transformar numa horda selvagem.

O ignoródio visa, portanto, o ataque à instituição escolar, inclusive à Escola de Psicanálise – como já tem sido feito -, a toda forma de transmissão de saber, como podemos depreender do projeto da proposta da “Escola sem partido” e, dentro do espírito de concentração-extração (concentração dos ricos e extração dos pobres da lógica do discurso capitalista), visa a acabar com a inteligenzia e promover a burrizia generalizada, ou melhor, a suave idiotização da era digital-bolsonariana.

Há assim um silêncio impositivo e uma ordem de não contestar, não protestar, não debater e não pensar. A ordem é passar pela goela princípios, proibições, palavras de ordem, para que o ‘cidadão que não pensa’ nem sinta que está sendo submetido a esse processo de robotização, ou melhor, de desumanização.

No entanto, esse massacre que a todos alcança, nem a todos cala. Pois cada sujeito é pensante – como sujeito singular – e desejante em sua singularidade. Cada um é, por definição, uma objeção ao Todo que constitui as massas e ao Um da totalidade imposta pelo pensamento único.

O anti-intelectualismo serve ao discurso capitalista como uma luva na medida em que suspende barreiras ao consumismo desenfreado, na medida em que cada sujeito é, nesse pseudo laço social promovido pelo capitalismo, reduzido ao um mero consumidor.

O discurso capitalista nos transforma a todos em operários, diz Lacan, e podemos acrescentar, nos reduz todos a consumidores dos gadgets produzidos pelo discurso da tecno-ciência fazendo-nos crer que esse objetos são causa de nossos desejos.

Como efeito da paixão pela ignorância, a ordem de não pensar no seu desejo impede o sujeito de encarar sua divisão e de se perguntar: ”qual é meu desejo?”, “qual o desejo que inconscientemente me move como um desejo do Outro?” (“Che Vuoi?”).

Não. O discurso capitalista, formalizado por Lacan, onde estamos sob o comando do Capital como significante-mestre no lugar da Verdade para cada um, não admite divisão subjetiva. Nem interrogações apenas a obediências à ordem do consumo: “trabalhe para ganhar dinheiro e consumir mais”.

Assim, o sujeito obscuro do desejo se vê aspirado pela Igreja-máquina de um credo partilhado por muitos: “In Gold we trust”. Mas nessa Igreja do Deus capital cada um está na corrida sozinho e em competição com o outro para ver não quem sabe mais ou quem é mais competente, e sim para ver quem ganha mais, quem tem mais insígnias de riqueza, quem está mais próximo da Verdade.

A psicanálise nos traz a possibilidade de saída do gozo da paixão da ignorância ao despertar o desejo de saber que é o desejo de analisante – desejo de se interrogar sobre seu sofrimento, suas falas e seus sintomas.

Pois é o sintoma que surge como índice da existência do sujeito como singular e único que é enquanto sujeito do desejo, sujeito da história e sujeito do direito que se expressará no divã e na polis.

O sintoma, como a forma em que cada um goza junto a seu inconsciente, é a pedra no caminho da estrada capitalista, é a pedra que emperra a máquina do Capital construída com o discurso da ciência.

Eis porque a politica da psicanálise é a politica do sintoma

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