O fim da universidade pública, por Luís Felipe Miguel

“Passei dois terços da minha vida dentro de universidades públicas – como estudante de graduação, de mestrado e de doutorado, depois como professor. Sei bem que elas estão longe de ser uma sucursal do Paraíso na Terra – há problemas, muitos, e graves. Mas sei também que a campanha crescente contra elas, que está em vias de se tornar política de governo, não tem por alvo nenhum destes problemas. Pelo contrário: o que incomoda na universidade pública brasileira são seus méritos, que felizmente também são muitos, e elevados.

Em outros momentos, a declaração do notório sonegador, contrabandista e candidato a chefe local fascista – “as universidades destruíram este país” – poderia ser encarada com humor, como uma declaração involuntária de bons serviços. Preocupante seria se ele nos visse com bons olhos. Mas não agora, quando temos na presidência um sujeito que se dedica a proferir de público inverdades sobre a pesquisa universitária e no Ministério da Educação um fanático que não esconde seu desprezo pelo conhecimento. E o guru do governo é um semiletrado movido pelo ressentimento contra a instituição universitária.

A anunciada instauração de uma CPI na Assembleia Legislativa paulista, por iniciativa do vice-líder do governo Dória, para investigar as universidades públicas, é uma nova etapa na escalada de agressões em curso.​ A justificativa apresentada é a necessidade de investigar a aplicação dos recursos, os processos de seleção dos dirigentes universitários e a “doutrinação marxista”.

O foco sobre os recursos visa reforçar a ideia de que a universidade é um espaço de descalabro administrativo, que é o elemento mais recente da velha campanha contra elas. O episódio trágico da Universidade Federal de Santa Catarina, em que o reitor cometeu suicídio em meio a arbitrariedades cometida contra ele e a instituição, em investigação policial espetaculosa que se mostrou incapaz de provar uma única irregularidade, não contribuiu para reduzir essa sanha. Parece até ter tido efeito contrário.

Qualquer um que viva o dia a dia da universidade certamente tem motivos para criticar prioridades na alocação de recursos. Tais prioridades devem ser discutidas no âmbito das próprias universidades; é o princípio da autonomia universitária, que entende que a expertise própria das atividades ali desenvolvidas impede que as decisões sejam tomadas por outrem e que é respeitado no mundo todo. Claro que, eventualmente, podem ocorrer casos de desvio de recursos, mas tendo a acreditar que em nível até menor do que ocorre em outros órgãos públicos ou empresas privadas, dado o caráter colegiado da gestão universitária e a atenção especial concedida pelos órgãos de fiscalização e controle. Inútil para combater desvios reais, a CPI é instrumental para atingir a autonomia universitária.

O mesmo vale para a seleção dos dirigentes. Temos controvérsias sobre como ela deve ocorrer (quem tem direito a voto, quem tem direito a se candidatar, paridade ou não) e mesmo críticas profundas à forma como os processos por vezes ocorrem. Mas o principal é manter a gestão universitária respondendo aos interesses da educação, da produção do conhecimento e da sociedade, a salvo do loteamento político e dos governantes de plantão. E é isso que querem atingir.

O principal, sem dúvida, é o fantasma da doutrinação. A campanha é tão intensa e incansável que hoje a hegemonia esquerdista nos campi é aceita como fato incontestável. Para quem acha que qualquer um que aceite que a terra é redonda é um perigoso comunista, certamente as universidades são antros de subversivos. Para o meu gosto, ao contrário, temos marxistas de menos e acomodação demais.

O que incomoda é que a universidade é um espaço de questionamento, de inquirição – exatamente o que os donos do poder não querem. Nela, um charlatão como o Rasputin de Richmond dificilmente consegue prosperar. Nela, a imposição de ideias prontas e de dogmas não tem lugar, já que o debate e a dúvida fazem parte da sua natureza.

Por isso, a universidade pode servir à desnaturalização e ao enfrentamento das hierarquias sociais, dos preconceitos e das formas de dominação social. Pode servir também ao enfrentamento de nossa condição subalterna e à construção de um projeto de independência nacional – outro anátema para os atuais chefes do país, que fazem profissão de fé do servilismo.

Sufocar a autonomia na busca do conhecimento, o espírito crítico, a liberdade de pensar – este é o projeto, de características plenamente medievais, daqueles que investem contra a universidade pública brasileira.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s