Para continuar brigando, por Rogério Godinho

Em desespero, as pessoas perguntam: o que fazer?
Talvez tomar as ruas. Talvez estimular seu candidato. Talvez reunir o centro político em uma frente única. Talvez iluminar, com argumentos mágicos, a própria família.
Mas nada acontece, o desalento é enorme e você se pergunta se está sendo indiferente demais. Se os líderes estão apáticos demais.
Se todos estão desinteressados demais.
E, em cada semana, um novo absurdo preenche o noticiário.
Todos esperam que um deles finalmente desperte o vizinho alienado, o militante cego, o familiar inculto.
Sinto dizer, seja o que for, nada vai funcionar.
Não agora.
Salvo a metafórica arma fumegante na mão, prova indiscutível do crime, nada vai mudar essa situação hoje. Quiçá, nem a arma fumegante.
Nem amanhã, nem em junho, nem em julho.
Você vai explicar, postar, apontar e alguém sempre vai dizer: “antes era pior”. “Para que criticar, vamos esperar”. “Não é tão ruim assim”.
O Brasil estava cego ontem, continua cego hoje. Uns transtornados pela raiva, outros míopes por não possuir discernimento para compreender o que é tão ruim nesse governo, tão ruim que consegue ser pior do que aquilo que era tão ruim ontem.
Se é assim, o que nos resta? O desespero? Aceitar o desastre? Fazer parte do gado?
Ficar imóvel diante da destruição da educação, do meio ambiente, do futuro?
A boa notícia é que nada dura para sempre.
Nem a fama do herói, nem a popularidade do vigarista.
Todo líder se desgasta.
Líderes estúpidos se desgastam mais rápido.
Este que está aí também vai cair.
Já começou.
Por ora, o que se pode é acelerar a queda.
Com calma, se é que é possível, contrapor mentira com argumento, bravata com números, palavrão com pesquisa. É rejeitar a mentira do seu lado, é trocar o argumento que lhe convence por aquele que vai convencer o outro.
Porque você precisa entender o que comove esse eleitor, encontrar a brecha que vai produzir uma nesga que seja de luz.
É seguir com o meme, com a piada, o jornalismo que mostra a sujeira, a análise que destrincha o erro, a pergunta diária sobre onde está o Queiroz, o passageiro que convence o motorista do Uber.
Não precisa hierarquizar, patrulhar a revolta alheia. Cada protesto tem seu papel nessa briga, nenhuma ação é pequena demais. Nenhuma publicação, nenhuma piada, nenhuma bandeira, nenhuma crítica é irrelevante. Todas têm seu espaço e sua função. Todas acabam encontrando seu alvo nessa morte de mil cortes.
Assim se acelera a queda.
E, aí sim, virá o momento da rua. Não está tão longe.
Depois, o momento de dizer “eu avisei”.
Depois, ainda, a queda.
Mas não será este mês ou no outro.
Hoje, de nada adianta dez mil pessoas na rua, de nada serve jogar os problemas na cara do vizinho.
Isso só faz o eleitor se retrair ainda mais na sua teimosia delirante.
Nenhuma razão, nenhum post, nenhuma publicação vai iluminar essas almas.
Só o tempo desgasta a paciência da população.
Só o tempo.
Enquanto isso, é preciso acalmar o coração.
Para não desesperar.
Para continuar brigando.

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