O coronavírus e a economia, Luiz Gonzaga Belluzzo

O coronavírus e a economia

Luiz Gonzaga Belluzzo

Abster-se de gastos em uma depressão é desperdiçar homens e máquinas e aumentar a miséria humana

A pandemia do coronavírus aplacou as exuberâncias das Bolsas de Valores no mundo inteiro. Logo após o anúncio da disseminação do bicho, os mercados de ações dobraram os joelhos urbi et orbi.

Os bancos centrais anunciaram providências. Na segunda-feira 2 de março os mercados comemoraram, os índices responderam com expressivas saudações de alívio. Já na terça-feira 3 de março, o Federal Reserve de Jerome Powel tascou uma redução de 0,5% na policy rate americana. As Bolsas recuaram.

“Eles estão empurrando a corda”, disse o veterano investidor de mercados emergentes Mark Mobius em uma entrevista à Bloomberg TV. “O problema não se reduz às taxas de juro, já muito baixas globalmente. O problema maior é a cadeia de suprimentos abrigada na China.” Os mercados vão piorar, “a menos que a China possa aumentar a produção”, disse ele.

“Empurrar a corda” é uma metáfora keynesiana que pretende apontar a ineficácia da política monetária para estimular a economia e seus mercados em momentos de grande incerteza. Em 1995, a economia japonesa curtia uma deflação braba. Lá estava o economista-chefe da Jardine Fleming Securities, Richard Werner. Assustado com a persistência da deflação, com a velocidade de tartaruga da economia, Werner recorreu à metáfora keynesiana.

“Como Keynes apontou na década de 1930, ao cunhar a metáfora da corda, em um ambiente deflacionário quando as taxas de juro reais estão se aproximando de zero, a visão convencional da política monetária é impotente.” O Banco do Japão empurrou a corda sem sucesso por vários anos: a taxa básica atingiu um patamar histórico de 1%. No entanto, a economia não dava sinais de vida. Werner argumenta que o enrosco não decorria do “preço do dinheiro”, pois as taxas de juro estavam no chão. O problema, diz ele, era a “quantidade de dinheiro”.

Até mesmo um observador desatento da crise de 2007/2008 poderia se espantar com a “quantidade de dinheiro” despejada pelos bancos centrais – mais de 22 trilhões de dólares – para salvar os “mercados” apavorados com as consequências de suas próprias insanidades. O dinheiro sobra, mas poder aquisitivo, ou seja, o gasto, continua modorrento. O cacau circula nas altas esferas da finança e recusa-se a baixar à terra onde habitam homens e mulheres.

A economia só volta a funcionar embalada pelo dispêndio de empresas, famílias e governo. Depois da Grande Recessão de 2007/2008 foram mais bem-sucedidas as políticas econômicas que injetaram renda monetária na economia. Os Estados Unidos puxaram a fila. Cresceram mais que os europeus, a despeito do aumento da desigualdade e da precarização nos mercados de trabalho.

Devo relembrar a mensagem enviada por Keynes a seus amigos americanos em 1934: “Quando me deparo com a questão do gasto, imagino que ninguém de senso comum duvidaria do que vou dizer, a menos que sua mente tenha sido embaralhada anteriormente por um financista de escol ou um economista ortodoxo. Nós produzimos a fim de vender. Em outras palavras, nós produzimos em resposta aos gastos. É impossível supor que nós possamos estimular a produção e o emprego, abstendo-nos de gastar. Então, como eu disse, a resposta é óbvia”.

Mas, em um segundo olhar, vejo que a questão tem sido encaminhada para inspirar uma dúvida insidiosa. Para muitos, gasto significa extravagância. Um homem que é extravagante logo se torna pobre. Como, então, uma nação pode tornar-se rica fazendo o que empobrece um indivíduo? Esse pensamento desnorteia o público.

No entanto, um comportamento que pode fazer um único indivíduo pobre pode fazer uma nação rica. Quando um indivíduo gasta, ele não afeta só a si mesmo, mas outros. A despesa é uma transação bilateral. Se eu gastar minha renda para comprar algo que você pode fazer para mim, eu não aumentei minha própria renda, mas aumentei a sua. Se você responder comprando algo que eu posso fazer para você, então minha renda também é aumentada.

Assim, quando estamos a pensar na nação como um todo, devemos ter em conta os resultados como um todo. O resto da comunidade é enriquecido pela despesa de um indivíduo. Sua despesa é simplesmente uma adição à renda de todos os outros. Se todo mundo gasta mais, todo mundo é mais rico e ninguém é mais pobre. Cada homem beneficia-se da despesa de seu vizinho, e as rendas são aumentadas na quantidade exigida para fornecer os meios para a despesa adicional.

Há apenas um limite para que o rendimento de uma nação possa ser aumentado desta forma: o limite fixado pela capacidade física de produzir. Abster-se de gastos em um momento de depressão, não só falha, do ponto de vista nacional, como significa desperdício de homens disponíveis e desperdício de máquinas disponíveis, para não falar da miséria humana.

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