POR UMA REVOLUÇÃO DO CORAÇÃO, por Ulysses Ferraz

POR UMA REVOLUÇÃO DO CORAÇÃO
Em um mundo regido preponderantemente pelas forças de mercado, os arautos da ideologia neoliberal querem nos convencer de que já nascemos com os nossos objetivos delimitados. E querem nos persuadir de que esse mundo é o único mundo possível. Um mundo em que nossos fins já estão determinados, antes mesmo de nascermos. Nesse mundo, que de certa forma aceitamos e ajudamos a criar, gerações após gerações, só nos resta competir para vencer o jogo dos mercados. Toda nossa energia é canalizada para os meios, para os processos, para os mecanismos, para as técnicas de obtenção de resultados previamente estabelecidos.

Mundo da eficiência, não importa qual seja o fim. Vencer na vida, chegar lá, ter sucesso é, em última instância, sinônimo de sermos consumidores de alto poder aquisitivo. Liberdade para consumir. Poder de compra é o grande troféu. Essa escolha antecipada e socialmente determinada nos faz competir sem trégua por um objetivo que não escolhemos, mas que internalizamos, aceitamos e passamos a acreditar como sendo parte da natureza humana.

A competição se torna expressão humana naturalizada, “biologicamente” determinada, parte da “essência” mesma de sermos humanos. Acreditamos e aceitamos essa naturalização de nossas crenças mais essenciais. E nos lançamos à competição mais violenta. A competição como modo de vida. Cotidiana, banalizada, metódica. Daí tanto ódio, tanta violência, porque competir é sempre deixar o outro para trás. Nessa lógica, perdemos todos, até quando cremos vencer.

Por isso odiamos, por isso somos violentos, por isso vivemos na intolerância, na indignação. Com o outro, sempre o outro, nosso competidor direto e muitas vezes indeterminado, impessoal. Talvez se nós buscássemos nos apropriar de nossos objetivos, de nossos fins, deslocando a energia imensa hoje apenas aplicada aos meios, e vivêssemos norteados pelo que nosso coração realmente deseja, pelo que realmente nos toca, nos move e comove, talvez fizéssemos a verdadeira revolução.

Talvez construíssemos um outro mundo. Mundo em que a revolução seja usar as forças coletivas e institucionais como meios, como instrumentos para realizar os fins de um mundo mais justo, mais equilibrado, mais livre, mais diversificado, mais igualitário, mais humano. E mais cooperativo.

Uma revolução do coração, em que a razão, ao contrário de inexistir e se opor ao coração, seria sua fiel aliada e utilizada como instrumento de iluminação para vivermos a vida que realmente vale a pena ser vivida. Uma revolução do coração, em que meios racionais deixassem de ser usados para fins irracionais.

Em tempos de pandemia e isolamento social, quando nossa viabilidade enquanto espécie depende cada vez mais da nossa capacidade de cooperação e ajuda mútua, o mundo como temos vivido até agora, individualista, economicista, consumista e ultracompetitivo, já não faz mais sentido. Se é que já fez algum dia.

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