Fiocruz, seu destino histórico e a cloroquina, entrevista com Nísia Trindade


Chico Alves
Colunista do UOL
21/04/2020 04h00
Nascida em meio à luta contra epidemias como febre amarela, peste bubônica e varíola, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) completa 120 anos em maio, novamente na linha de frente para superação de um enorme desafio sanitário. A instituição foi designada pela Organização Mundial de Saúde como referência na América do Sul no combate à pandemia do coronavírus.

“Estamos cumprindo nosso destino histórico”, diz a doutora em Sociologia Nísia Trindade, presidente da Fiocruz.

As dificuldades para encontrar tratamentos, vacinas e estratégias contra a doença são conhecidas, mas um obstáculo surpreendente ao trabalho dos pesquisadores foi registrado na semana passada. Em meio a estudos sobre a eficácia do uso da cloroquina para o tratamento da covid-19, cientistas da fundação, em Manaus, e de outras instituições foram ameaçados nas redes sociais e fora delas, ao decidirem interromper os testes da substância em pacientes graves, por conta dos riscos.

“Não é um ataque à Fiocruz ou ao grupo de pesquisadores específico, mas uma ameaça ao trabalho científico”, define Nísia.

Nessa entrevista, a presidente da Fiocruz fala que ainda não há respostas imediatas para a pandemia em termos de medicamentos, e por isso o afastamento social continua sendo a estratégia mais indicada. Nísia comenta ainda o aumento da produção de testes para diagnóstico da doença, que chegará a 11 milhões de unidades, e a busca de formas seguras para sair do isolamento quando chegar a hora.
“Não se poderá sair da situação que temos preconizado hoje do isolamento para atividades com aglomeração. Isso terá que ser progressivo”, adianta.


UOL – Recentemente, cientistas que pesquisam a eficácia da cloroquina foram ameaçados nas redes sócias e fora delas. Ao que a sra. atribui esses ataques?

Nísia Trindade – Vejo como um ataque não só aos pesquisadores, mas um ataque a toda a ciência. Não por acaso, além do conselho da Fiocruz, também a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Sociedade de Medicina Tropical, a Academia Nacional de Medicina e várias instituições científicas se posicionaram todas em favor do respeito à pesquisa científica, à preservação do trabalho dos pesquisadores.

Não se trata de ser a favor ou contra um medicamento. Isso não teria o menor sentido. Toda a orientação da ciência, a nível internacional, é para que as pesquisas com relação a tratamentos possíveis sejam feitas a partir de medicamentos já conhecidos. Então, eu vejo esse ataque não como uma ameaça à Fiocruz ou ao grupo de pesquisadores específico.

Todo esse trabalho passa por comitês de ética, comitês de segurança de cada pesquisa que envolve o estudo clínico, que envolve vidas, que envolve pacientes, todos esses trâmites estão sendo seguidos e nós estamos acompanhando. Foi dessa maneira que o nosso conselho se posicionou.

Houve uma resposta das autoridades? Já foram identificados autores das ameaças?

Tivemos contato com uma comissão externa do Congresso que está acompanhando o coronavírus e entrou em contato comigo, como presidente da Fiocruz. Passei todas as informações e temos feito isso em relação a todas as instâncias. Essa pesquisa, inclusive, tinha sido acompanhada pela diretoria de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Sempre temos esse cuidado, que é como procedemos com as nossas pesquisas.

Enquanto temos esses ataques vindo de um pequeno grupo aqui no Brasil, a OMS reconhece a Fiocruz como instituição de referência para o combate ao coronavírus na América Latina. O que isso representa?

Isso representa um reconhecimento muito importante, especificamente ao nosso Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, vinculado ao Instituto Oswaldo Cruz, que é um de nossos institutos mais tradicionais na pesquisa biomédica. Também um laboratório do México foi reconhecido. Isso significa que o laboratório, além da análise de amostras do material coletado para identificação do vírus é uma referência não só para o Brasil agora, mas para toda a América Latina, no sentido de definir os melhores protocolos, a formação das equipes. É um componente de pesquisa que ajuda todo o acompanhamento da pandemia, que vai ser muito importante para o pós-pandemia também. Esse laboratório contribui para todo um conjunto de medidas que envolve o material onde se identifica o vírus.

Uma das frentes da Fiocruz é a produção de testes. Quanto se conseguiu aumentar na produção desse item?

Essa produção tem implicado um esforço imenso da nossa instituição, fruto de muito trabalho em ciência e tecnologia. A Fiocruz tem um laboratório de produção de vacinas, de biofármacos e também desses testes, que é a Biomanguinhos. Associado a esse esforço, também o Instituto de Brasileiro de Biologia Molecular do Paraná. Nesses institutos nós conseguimos otimizar a produção desses testes e nós vamos chegar agora, a partir de maio, à produção de 2 milhões de unidades por mês. Totalizando até o final de agosto, 11 milhões de testes acumulados.

Com isso, acho que daremos uma contribuição muito importante para esse processo de testagem. Produzimos o teste molecular, ou seja, o que tem eficácia comprovada e uma acuidade para identificar as infecções já desde o início de seus sintomas. Isso é um grande avanço.

Junto com isso, pretendemos também contribuir através do Ministério da Saúde para pensar as melhores estratégias para todo o sistema de vigilância, para os laboratórios dos estados, de maneira que não haja exames na fila, como se diz. Temos também trabalhado muito com os conselhos de secretários estaduais de saúde, com os laboratórios centrais nos estados.

É essa rede que forma a grande vigilância n Brasil e a pandemia coloca um desafio maior porque não bastam as ações regulares. É de fato um esforço imenso, temos que ser mais rápidos que o vírus. É um desafio e tanto.

Quais as pesquisas prioritárias sobre covid-19 em desenvolvimento na Fiocruz?

Nós temos realizado um conjunto de estudos que vão desde pesquisas ligadas ao vírus, respostas imunológicas, passando também por modelagem epidemiológica, modelagem matemática para entendermos como o vírus poderá vir a se comportar no Brasil, estudos de cenários.

Eu diria que todos os conhecimentos precisam se reunir nesse momento: a imunologia, a virologia, a epidemiologia e a saúde pública, porque essa pandemia, com sua velocidade de transmissão, coloca em xeque os sistemas de saúde de todo mundo. Nesse momento nós estamos lançando um edital de pesquisa, dentro do nosso programa Inova Fiocruz, que se volta para responder perguntas que não foram respondidas e são fundamentais sobre a doença, o comportamento do vírus e também o comportamento do sistema de saúde.
Ao mesmo tempo também temos produtos imediatos: intensificação de estudos clínicos, novos protocolos de tratamento, uma série de ações importantes para que possamos contribuir como instituição de ciência nessa pandemia.

Nas testagens dos possíveis remédios que já existem, houve algum resultado animador?

Não. Resultado, infelizmente ainda não temos. Além do estudo que você fez referência, sobre a cloroquina, em Manaus, nós participamos de um grande estudo clínico, o estudo Solidariedade, coordenado pela OMS, que vai avaliar a possibilidade terapêutica da cloroquina, da hidroxicloroquina, de alguns antivirais. A Fiocruz é a coordenadora desse estudo no Brasil e envolve 18 hospitais em 12 estados.

É um esforço muito intenso, uma rede de estudo clínico. Não há respostas imediatas, infelizmente. Nós gostaríamos de já dizer à população: esse medicamento é o melhor ou essa vacina é a melhor. Por ora, as medidas são de prevenção não-farmacológicas: o isolamento, a distância social, os cuidados de higiene. Que não são simples, sabemos, mas são as medidas recomendadas pela comunidade internacional.

E quanto a vacinas? Empresas americanas informam que no início do ano que vem podem chegar a algum resultado. E por aqui, como andam as pesquisas?

Nós temos feito discussões e aberto possibilidades de trabalho conjunto com laboratórios de todo mundo também, tanto do setor público quanto do setor privado. Sempre com uma preocupação muito grande, já que nossa instituição é signatária de uma rede de pesquisas que tem como objetivo o acesso. Não adianta produzir uma vacina ou chegarmos a um novo medicamento sem que haja garantia de acesso principalmente nos países em desenvolvimento ou de baixa e média renda da América Latina e da África.

Vacinas baratas a que todos tenham acesso, que chegue à sociedade, esse é um ponto muito importante. Um segundo ponto é que nós temos uma tradição de transferências tecnológicas a vacina de febre amarela, que hoje nós somos o principal responsável por essa produção no mundo. Isso é fruto de uma transferência tecnológica da Fundação Rockfeller para a Biomanguinhos. A

A pandemia mostra a importância do país ter uma autonomia na produção de vacinas, de insumos e mesmo de equipamentos, já que estamos vendo essa carência em todo mundo, essa concentração em um único país. Tudo isso faz com que a Fiocruz seja uma instituição que poderá dar respostas para o futuro. Para isso, temos um importante projeto que é o complexo biotecnológico, em Santa Cruz, aumentando a nossa capacidade de vacinas.

Nós temos a resposta imediata à pandemia, mas temos que pensar nos passos seguintes. Para a epidemia da covid-19 e também para outras doenças com que o mundo infelizmente passará a conviver.

Depois do coronavírus outras viroses semelhantes vão surgir?

Isso é algo que já vem acontecendo no mundo. Esperamos que não com essa violência, no sentido da velocidade de transmissão e dos casos graves com complicações que levam tantas pessoas ao mesmo tempo para as unidades de tratamento intensivo. Mas temos que nos proteger.

Além disso, até termos a imunidade, a vacina será necessária e o acompanhamento epidemiológico dessa pandemia. Ou seja, a pandemia não termina no curto prazo. Temos que pensar que até termos uma vacina estaremos expostos a ciclos de doenças, coisas que não sabemos, Também não quero fazer aqui nenhuma previsão. São coisas que estão sendo estudadas e caberá à pesquisa científica nas diferentes áreas nos apontar esses cenários.

Nos últimos dias se registrou um aumento de circulação de pessoas nas ruas de várias cidades do país. O que fazer para aumentar a adesão ao isolamento social?

Em primeiro lugar, não é fácil lidar com essa situação, que é nova. Pela primeira vez eu vivo um momento como esse, assim como grande parte da população. Uma experiência semelhante em nosso país em termos de quarentena, mas em momento muito diferente na história, só ocorreu com a gripe espanhola, que teve mortalidade intensa e foi um gravíssimo problema logo após à Primeira Guerra. Acho que há uma dificuldade desse entendimento.

Mas creio que com toda essa dificuldade, boa parte da população está entendendo a gravidade e é propensa ao isolamento sanitário. O que precisamos são de medidas que não só reforcem a comunicação, mas que tornem viável esse isolamento em alguns grupos vulneráveis que têm mais dificuldades. Os trabalhadores informais têm muita dificuldade. Para isso, teríamos que ter reforço das medidas de proteção social.

Temos agora a destinação de R$ 600 para permitir aos trabalhadores que fiquem em casa, mas creio que precisemos de mais medidas em relação a pequenas e médias empresas para dar esse suporte. Além disso, muitos grupos vulneráveis vivem em localidades de altíssima densidade demográfica, com altíssima aglomeração. As próprias casas muitas vezes com sete pessoas no mesmo cômodo. São questões de um país marcado por profunda desigualdade social.

Ao chegar ao país, o vírus tem essa realidade no seu processo de expansão. É diferente se olharmos para a Europa e mesmo diferente de outras realidades na Ásia, onde a pandemia teve seu início. É um país continental, com grande diversidade regional, com grande desigualdade social. Tudo isso se reflete. Temos que trabalhar medidas específicas. Na Fiocruz nós construímos um fórum conjunto com os comunicadores populares, para dessa forma termos realmente mensagens que cheguem às pessoas. Há uma grande rede de solidariedade em relação a essas populações vulneráveis e locais de mais baixa renda e muita aglomeração, como favelas e periferias.

Temos pensar junto com essas populações e suas lideranças as melhores medidas. É preciso que as pessoas tenham meios para fazer esse isolamento. Creio que essa é uma das tarefas mais urgentes.

Já se sabe qual a forma mais segura de flexibilizar o isolamento social?

Não, isso ainda está em discussão. Eu mesmo participo do fórum de líderes globais de saúde da OMS, onde esse debate está se realizando nesse momento. O que está muito claro é que essa saída será gradual, vai ser muito importante o controle dos casos, o controle também da oferta de leitos, para que se possa encaminhar os pacientes graves.

Mas não é o bastante ter os leitos disponíveis. É muito importante o controle através de testes, através de uma visão de como a doença vai se disseminando. Ou seja, é uma fase de muita cautela e da qual não se poderá sair do isolamento para o retorno pleno a atividades com aglomeração. Isso terá que ser progressivo. Isso é muito claro em todas as orientações dos estudos, até porque nós teremos pessoas ainda sujeitas a infecção e podemos ter novos ciclos da doença o que seria bastante perigoso. Teremos sair com muita cautela e com base em evidências científicas, articuladas ao reforço do sistema de saúde. Será um trabalho que exigirá muita coordenação. Tenho certeza que a comunidade científica fará um grande esforço para que seja bem-sucedida a saída dessas medidas atuais.

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