Olavo viveu para entender que foi usado e descartado por Bolsonaro

Publicado no Uol Notícias

Por Leonardo Sakamoto

25 de janeiro de 2022

Olavo de Carvalho destratou as pessoas como se todas fossem ignorantes e ele sábio. E talvez tenha morrido de uma doença para a qual já existe vacina por recusar a tomá-la. Foi sim um farol para milhares, como postou de forma oportunista Jair Bolsonaro. Pena que chamou multidões em direção às pedras ao invés de alertar para seu perigo.

É irônico escrever um texto respeitoso de alguém que desrespeitava tanta gente a todo e qualquer momento. Talvez ele próprio preferisse um texto cheio de palavrões e insultos como ele faria.

Lamento a sua morte como lamento as das 5,6 milhões de vítimas mundiais da covid-19 e de suas complicações. Creio que todos os que lutam para que os direitos humanos não sejam um monte de palavras bonitas emolduradas em uma declaração septuagenária não acreditam que uma morte vingue qualquer coisa. Até porque, convenhamos, amor pela morte é departamento do bolsonarismo.

Mas também lamento que ele tenha falecido sem poder constatar que a guerra cultural que ajudou a fomentar por um ultraconservadorismo excludente, preconceituoso e violento não vai prosperar. Lamento que ele tenha morrido no meio da longa noite, antes de constatar que o dia sempre volta a nascer.

Olavo, contudo, viveu o suficiente para perceber algo que outros ex-colaboradores do atual regime autoritário sob o qual estamos submetidos também já haviam percebido: que foi usado e descartado por Bolsonaro.

“Ele me usou como ‘poster boy’, ele me usou para se promover e se eleger. Depois disso não só esqueceu tudo o que eu dizia, mas até os meus amigos que estavam no governo ele tirou”, afirmou em live, no dia 20 de dezembro do ano passado, em que também participaram os ex-ministros Abraham Weintraub (Educação), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente).

Claro que rolou uma simbiose, mais do que um parasitismo. Olavo também se aproveitou da proximidade com o uso que Bolsonaro estava fazendo dele para ganhar estatura, tornar-se pauta importante na mídia, indicar ministros e secretários, ser convidado para jantares. Mas, no final, com o casamento do presidente com o centrão, sua importância relativa já havia decaído muito. Pelo contrário, os novos aliados queriam que o histrionismo fosse deixado de lado em nome do pragmatismo eleitoral.

Mas é notória em Brasília a capacidade de Bolsonaro de usar quem está à sua volta para depois abandoná-lo no meio da estrada. Isso não aconteceu apenas com ala olavista do governo, da qual os três ex-ministros supracitados faziam parte, mas também com pessoas que consideravam o capitão um amigo, como o general Santos Cruz, Magno Malta ou Gustavo Bebianno.

O astrólogo e polemista tinha clara consciência de que nunca foi o “guru” do presidente e de que Jair nunca tinha lido um livro seu. Bolsonaro usou Olavo como ração para uma parte de seu rebanho. Mas o presidente nunca foi olavista e sim bolsonarista, com um projeto de país que não passa pela cartilha professada pelo falecido, mas por qualquer coisa que garanta sua perpetuação no poder. Bolsonaro, em última instância, não é ideológico, mas um aproveitador.

O bolsonarismo é sincrético, com espaço para as relíquias confusas e extremistas de Olavo, mas também para igrejas com estátuas do centrão, símbolos milicianos, sacramentos militares e preces do fundamentalismo religioso. Agora, com a morte de Olavo, o presidente pode usar o polemista nos seus discursos voltados ao bolsonarismo-raiz sem que o próprio venha reclamar.

O olavismo não se vai com Olavo, contudo. Há na macabra negativa de vacinas a crianças, levada a cabo pelo governo federal para excitar os seus seguidores, uma clara influência do movimento que o polemista ajudou a fomentar. Tanto que há seguidores seus dentro do Ministério da Saúde transformando estupidez em política pública.

Da mesma forma que o bolsonarismo deve sobreviver a Bolsonaro, o olavismo vai sobreviver a Olavo.

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