A beleza da vida em sociedade

A primeira frase que li em um texto sobre Ciências Humanas e Sociais há, talvez, mais de 50 anos, dizia : ”O ser humano é um ser gregário” e explicava que a sobrevivência do ser humano na Terra só se tornou possível pela colaboração e pela solidariedade. Este é um conceito muito simples de entender e, até, intuitivo: tudo à nossa volta, que nos proporcionou sobreviver em um meio-ambiente hostil, escapar ou curar nossas doenças ou manter nossa saúde física e mental, foi construído por grupos organizados, acumulando e compartilhando conhecimentos adquiridos pela vida em sociedade.

A vida em sociedade é bela, também, pelas lições que traz.

As pessoas anti-vacina, individualistas, que pregavam não querer participar de um experimento, estão servindo exatamente para isso: como grupo de controle para os cientistas estudarem os efeitos das variantes do vírus em indivíduos não vacinados.
Se uma decisão de aplicar placebo, ou seja, não aplicar vacina, em determinado grupo de pessoas para que sirvam de grupo de controle tem sérios questionamentos éticos, a existência de um grupo que escolheu não tomar a vacina, embora cause contaminação, superlotação nos hospitais e mortes de inocentes, pelo menos atenua a preocupação dos cientistas.
Esse grupo de anti-vacinas involuntariamente “participa do experimento”.
Aliás, desde o seu nascimento, tendo seu parto sido feito por uma parteira, numa choupana, ou por uma equipe de médicos “pica das galáxias, no mais sofisticado hospital do país, a pessoa está inserida em determinado grupo social e depende dele para nascer e sobreviver. Participarão sempre, mesmo sem querer, desse belo experimento que é o ato de viver. Viver é o experimento.

Destaque

Atacar Sérgio Moro é uma boa estratégia?

Carol Proner

As últimas pesquisas mostram que Sérgio Moro não convence. Mesmo com padrinhos influentes na mídia, que o sustentam há anos, como se vê agora na sua enésima capa da Veja, o ex-juiz não decola e frustra os planos da terceira via. Como tal, opinam alguns, mereceria ser ignorado. No campo jurídico esse impasse do cômputo político também aparece, de que críticas podem evidenciá-lo e, ao fim, beneficiá-lo de forma inversa.
O dilema se instalou no meio jurídico após Moro, via twitter, recusar um convite do grupo Prerrogativas para um debate a respeito da Lava Jato. A recusa reavivou uma enxurrada de mensagens e artigos do grupo lembrando da conduta do ex-juiz na chefia da operação farsesca que abalou o curso natural da democracia brasileira.
É difícil esperar que juristas moderem suas críticas porque levamos anos dizendo a mesma coisa e é exasperante que o ex-juiz que feriu gravemente os interesses brasileiros tenha o descaramento de se candidatar. Aliás, essas mesmas críticas foram as que, muito antes da Vaza Jato, sempre identificaram no juiz a intencionalidade de condenar Lula sem provas e de capitanear um novo processo penal no Brasil, imediatamente compreendido pelos especialistas como um processo penal de exceção.
Faço um testemunho do dia em que a sentença condenatória do Triplex do Guarujá foi publicada, um dia trágico para o direito brasileiro. Era uma quarta-feira, 12 de julho de 2017, quando o professor Juarez Tavares me telefonou dizendo que deveríamos nos reunir imediatamente para avaliar a longa sentença, pois à primeira vista lhe parecia grave. Fomos para o escritório e ali, acompanhados dos professores Gisele Cittadino, Gisele Ricobom e João Ricardo Dornelles, decidimos organizar um livro-denúncia contra as aberrações jurídicas prolatadas por Sérgio Moro numa decisão de 217 páginas que é um documento ímpar do arbítrio judicial no Brasil.
Após extenuante trabalho de revisão e diagramação, o livro foi publicado menos de um mês depois da sentença e o resultado foi inesperado. Recebemos 103 artigos de 122 juristas que esmiuçaram o procedimento esclarecendo as regras efetivamente em vigor e concluindo, em uníssono, que se tratava de uma decisão injusta e ilegal.
Portanto, um mês após a decisão, já havia um livro com farto matéria técnico e acadêmico de uma centena de articulistas que fundamentavam a intencionalidade condenatória de Moro contra Lula.
Importante notar que muitos dos autores jamais votariam em Lula ou teriam qualquer relação com a esquerda partidária. O que convocou a todos foi a percepção de perigo iminente, de que poderia ser firmado grave precedente de atribuir a um réu a condenação por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro a partir de fatos indeterminados com a justificativa de que era necessário combater a corrupção a qualquer preço. Em síntese, era o power point do Dallagnol tornado sentença.
Logo na apresentação da coletânea, o jurista Geraldo Prado destacou que o juiz recorreu a critérios de avaliação que convertem o ordinário em exceção: “O raciocínio condenatório que se apoia na exceção, recorre retoricamente a modelos jurídicos estrangeiros e traduz indevidamente conceitos penais – como salta aos olhos na condenação do ex-presidente por corrupção – fazendo letra morta da advertência da impossibilidade de transplantes do gênero, haveria de provocar vívida reação entre estudiosos do direito”.
O livro foi traduzido ao inglês e ao espanhol e motivou lançamentos em mais de 40 cidades no Brasil e no exterior, eventos levados pela Frente Brasil de Juristas pela Democracia, que depois viria a se institucionalizar na forma de Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD). Ali também se consolidava o papel do grupo Prerrogativas que, naquele momento, ainda confiava que os tribunais fariam justiça revertendo a aberrante decisão.
Poucos meses depois, e mesmo com todos os apelos e recursos impetrados pela ciosa defesa técnica, o acórdão do TRF4 confirmou a sentença contra Lula e deu razão às insinuações de que a Lava Jato fazia parte de uma estratégia maior de desestabilização política em curso no Brasil.
As escutas de Walter Delgatti ainda nem eram conhecidas quando lançamos, em maio de 2018, outro livro-denúncia, “Comentários a um acórdão anunciado”, organizado pelo mesmo grupo. Lembro-me que, às vésperas da decisão que possibilitaria a aplicação da pena antecipada de prisão a Lula, vivemos, Gisele Cittadino e eu, uma experiência incomum para professores de direito. A palestra que deveríamos proferir em Porto Alegre tinha como palco o carro de som da CUT estacionado em frente ao TRF4 e lá fomos nós, bastante surpreendidas e tímidas a princípio, mas logo entendendo que a luta pela presunção de inocência não estava nas academias de direito, mas nas ruas, e então soltamos a voz no megafone em direção às paredes moucas do Tribunal.
Essas são apenas algumas memórias entre tantas que vivemos, entre outros livros que lançamos depois e que fazem recordar a necessidade de denunciar a farsa jurídica que estava em curso e que prosperou graças à conivência dos tribunais superiores e da imprensa que hoje apoia o candidato Moro.
Cada um de nós do campo jurídico é capaz de lembrar onde estava no momento em que o habeas corpus a favor de Lula foi negado, abrindo alas para a espetaculosa prisão efetivada no Sindicado dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo. Ali, assim como nas decisões anteriores, nós fomos abatidos como juristas na defesa da Constituição e da democracia.
Com as revelações da Vaza Jato, os detalhes sórdidos da farsa jurídica tornaram-se finalmente conhecidos, embora só tardiamente reconhecidos pelo STF. Descobrimos que o MPF de Curitiba, liderado por Dallagnol, operava uma espécie de organização criminosa em conluio com Moro e integrantes da Polícia Federal, praticando ilegalidades no esquema de cooperação internacional com autoridades americanas. Com o passar do tempo e as revelações divulgadas, também percebemos que os integrantes do conluio tinham pretensões políticas, de formar o partido da Lava Jato, o que agora se confirma com a pré-candidatura de Moro. A mera candidatura de Moro, acompanhada por um livro autobiográfico que é pleno de cinismos e mentiras, é a demonstração de que a farsa ainda não acabou.
Os meandros da operação não são totalmente conhecidos e as consequências da Lava Jato ainda precisam ser mensuradas, mas o que está cada vez mais evidente é que a intencionalidade do ex-juiz que condenou Lula e o tirou da corrida eleitoral de 2018 vai além da saga contra o Partido dos Trabalhadores. Seja estagiando como Ministro de Jair Bolsonaro ou atuando como advogado em firma estadunidense, as conexões de Sérgio Moro com órgãos de inteligência daquele país sempre foram prioridade.
Nesse sentido, nem que seja por estratégia pedagógica, acredito que os integrantes do grupo Prerrogativas, do qual faço parte, e também da ABJD, do MP Transforma, da AJD e de tantas outras entidades que reúnem defensores das garantias jurídicas, devem sim seguir denunciando as atitudes perversas de um ex-servidor público que tem como traço de personalidade a perfídia.
Sérgio Moro desmereceu a toga para perseguir adversários políticos beneficiando interesses próprios quando não obscuros. Como Ministro, defendeu o excludente de ilicitude e outras teses punitivistas. Como advogado, traiu a profissão atuando, num evidente conflito de interesses, em processo de recuperação judicial no qual foi o juiz.
Acertam também os que o criticam em nome da memória histórica e do direito à reparação. Se é verdade que fomos vítimas de um golpe de novo tipo, menos ostensivo, híbrido, também é verdade que precisamos de algum tipo de justiça de transição para seguir adiante, pois são inúmeras suas vítimas diretas e indiretas.
E se Moro pretende se candidatar à Presidência depois de tudo o que fez, deve ser exposto por inteiro à luz dos holofotes.”

(Carol Proner é advogada, doutora em direito, membro do Grupo Prerrogativas e da ABJD)

Terrorista islâmico em Nice

Mateus Ziebell ,
Bom dia. Não vou pedir para você estudá-lo não. Muita gente boa só leu alguns poucos livros, se tanto, da extensa e importante produção de Marx em História, Filosofia, Direito, Sociologia e, naturalmente, mais tarde, em Economia. Deixou centenas de volumes manuscritos, sem edição. Mesmo Das Kapital ficou incompleto e foi terminado após a sua morte. Diversas universidades norte-americanas tinham e, com a crise do sub-prime de 2007/2008, voltaram a ter, professores especializados em Marx, com cursos regulares. Sem falar nas universidades europeias tradicionais, que sabem ser impossível ignorar a dissensão marxista.
Quando eu estudava Economia na Universidade Federal Fluminense, em 1971, em plena ditadura militar, havia censura sufocante. Só um lado da teoria econômica era permitido. Seria como um médico, na aula de Anatomia, receber um corpo humano cortado ao meio, longitudinalmente, somente o lado direito e estudá-lo como se fosse o corpo todo. Quando fui fazer o mestrado nos Estados Unidos, em 1979, a quantidade de livros e artigos mostrando a existência do “outro lado do corpo” era estonteante. E nas livrarias, mesmo as de bairro, em pequenos shopping center (Mall), a disponibilidade de livros era boa. E isso em Atlanta, no estado sulista da Geórgia! Imagine em Boston ou em São Francisco e Los Angeles.
Eu não sei como alguém pode condenar um autor, verdadeiro intelectual, mundialmente reconhecido, sem ter lido uma só linha. Durante meus estudos tive que ler Adam Smith, David Ricardo, Hayek, Milton Friedman (consultor e colaborador de Pinochet) e outros economistas conservadores, liberais ou neoliberais (“o lado direito do cadáver”) e, só assim, posso dizer que estudei anatomia completa.
Condenar um autor pelo uso inadequado de uma parte de sua imensa obra é como condenar o inventor do avião pelo seu uso como arma de guerra e para transporte das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

Ou o inventor do caminhão, porque um terrorista jogou o caminhão em cima do público, em Nice, na França, em 2009, matando xxx pessoas e ferindo outras tantas. A culpa não foi do caminhão, é óbvio, e sim do uso que foi feito dele.
Vai aí uma listinha da extensa bibliografia de Karl Max. Talvez sirva para você imprimir e colar na estante da biblioteca da sua casa, como lista de livros proibidos para seus filhos e sua esposa. Mas, cuidado, você não vai estar mais por aí e seus netos poderão se interessar pelo assunto, que estará mais atual do que nunca no futuro.

Jovem Marx (1839 a 1850)

Nesta é a época do chamado “jovem Marx”,onde predominam escritos mais voltados para a filosofia pura.

Oulanem[2]
Ano: 1839
Diferença da Filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro[3]
Título original: Über die Differenz der Demokritischen und Epikureischen Naturphilosophie
Ano: 1841
Tese de doutoramento na Universidade de Iena

Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
Título original: Kritik des Hegelschen Staatsrech
Ano: 1843
A Questão Judaica
Título original: Zur Judenfrage
Ano: 1843
Contribuição para a Crítica da Filosofia do Direito em Hegel: Introdução
Título original: Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie: Einleitung
Ano: 1844
Manuscritos Econômico-filosóficos
Título original: Ökonomisch-philosophischen Manuskripte
Ano: 1844
Teses sobre Feuerbach
Título original: Thesen über Feuerbach
Ano: 1845
A Sagrada Família[4]
Título original: Die Heilige Famile
Ano: 1845
A Ideologia Alemã[4]
Título original: Die deutsche Ideologie
Ano: 1845-1846
Miséria da Filosofia
Título original: Misère de la philosophie: réponse à la philosophie de la misère de Proudhon
Ano: 1847
A Burguesia e a Contra-Revolução[5]
Ano: 1848
Manifesto Comunista[4]
Título original: Manifest der Kommunistischen Partei
Ano: 1848
Trabalho Assalariado e Capital[6]
Título original: Lohnarbeit und Kapital
Ano: 1849
As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850[7]
Título original: Die Klassenkämpfe in Frankreich 1848-1850
Ano: 1850
Mensagem da Direção Central da Liga Comunista[4]
Título original: Ansprache der Zentralbehörde an den Bund
Ano: 1850
Transição (1852 a 1856)

Esta época é chamada de “período de transição”, quando o Marx passa a ler menos filósofos e mais economistas — nesse período a produção dele se resume a artigos e panfletos, produz o clássico 18 de brumário.

O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
Título original: Der Achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte
Ano: 1852
Punição Capital
Título original: Capital Punishment
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 18 de fevereiro de 1853

Revolução na China e na Europa
Título original: Revolution in China and Europa
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 14 de junho de 1853

O Domínio Britânico na Índia
Título original: The British Rule in India
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 25 de junho de 1853

Guerra na Birmânia
Título original: War in Burma
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 30 de junho de 1853)

Resultados Futuros do Domínio Britânico na Índia
Título original: The future results of British Rule in India
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 8 de agosto de 1853)

A Decadência da Autoridade Religiosa
Título original: The Decay of Religious Authority
Ano: 1854
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 24 de outubro de 1854

Revolução na Espanha
Título original: Revolution in Spain
Ano: 1856
Artigo publicado no New York Daily Tribune em duas partes, 8 e 18 de agosto de 1856

Fase adulta (1857 a 1880)

Esta época é chamada de “Marx maduro”, quando os estudos econômicos transparecem claramente em seus escritos.

Grundrisse
Título original: Grundrisse der Kritik der Politschen Ökonomie
Ano: 1857-1858
Para a Crítica da Economia Política
Título original: Zur Kritik der Politschen Ökonomie
Ano: 1859
População, Crime e Pauperismo
Título original: Population, crime and pauperism
Ano: 1859
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 16 de setembro de 1859

Manifesto de Lançamento da Primeira Internacional
Título original: Inaugural Address of the Working Men’s International Association
Ano: 1864
Salário, Preço e Lucro[8]
Título original: Value, Price and Profit
Ano: 1865
O Capital: crítica da economia política (Livro I: O processo de produção do capital) (Magnum Opus)[9][10]
Título original: Das Kapital: Kritik der politschen Ökonomie (Erster Band: Der Produktion Prozess des Kapitals)
Ano: 1867
Durante os anos seguintes, até o fim de sua vida, Marx se dedicará à redação dos demais volumes d’O Capital (publicados postumamente por Engels).

A Guerra Civil na França
Título original: The Civil War in France
Ano: 1871
Resumo de “Estatismo e Anarquia”, obra de Bakunin
Título original: Konzpekt von Bakunins Buch “Staatlichkeit und Anarchie”
Ano: 1874-1875
Crítica ao Programa de Gotha
Título original: Kritik des Gothaer Programms
Ano: 1875
Artigo em defesa da Polônia, publicado em Der Volksaat[4]
Ano: 1875
Carta sobre o futuro do desenvolvimento da sociedade na Rússia, escrita ao editor do periódico russo Otechesvenniye Zapiski e não enviada.
Ano: 1877
Notas sobre Adolph Wagner
Título original: Randglossen zu Adolph Wagners
Ano: 1880

Os cavalos do holandês, o Auxílio Brasil, a inflação e o economista chicagoan

Brasileiros desempregados e miseráveis esperam, desesperados o pagamento do Auxílio Brasil pelo governo federal. Tendo em vista a grave crise econômica alimentada – eu nem devia usar essa palavra fora de moda – pela catastrófica política econômica de Bolsonaro/Guedes e pela inflação galopante, o Auxílio será limitado e insuficiente.

Para muitos o Auxílio chegará muito tarde e eles terão o mesmo destino dos cavalos do holandês.

Um holandês criava cavalos e o preço da ração aumentou muito. Então o holandês contratou um economista brasileiro, formado na Universidade da maldade (Chicago), chamado Guedes, um verdadeiro chicagoan. O economista aconselhou o criador holandês a comprar somente metade da ração, para fazer o preço baixar. Para isto, recomendou deixar os cavalos comendo a metade das suas necessidades diárias de ração. O economista Guedes convenceu o criador holandês que, em um mês, os preços da ração cairiam pela metade. De fato, os preços da ração caíram, até mais do que isso. O plano de redução de custo e da inflação do brilhante economista só não deu totalmente certo porque os cavalos morreram, todos, 15 dias antes de fechar o mês. Questionado pelo criador holandês que estava desesperado, o economista brasileiro culpou a falta de colaboração dos cavalos e sua incapacidade de fazer sacrifícios em prol do bem comum. Ele sugeriu ao criador holandês plantar capim, empacotar em embalagem gourmet nas cores verde e amarelo e exportar para o Brasil. O economista brasileiro, que não entendia nada de nada mas se achava, sugeriu também a marca – Myth – The Edible Grass.

Segundo o seu consultor chicagoan havia, no Brasil, conforme dados do último trimestre de 2018, mais de 57 milhões de consumidores do produto.

O holandês, tendo em vista as notícias que circulavam no mundo sobre o Brasil, achou a ideia excelente, sorriu agradecido e elogiou a genialidade do seu consultor brasileiro. Conforme sugerido, exportou toneladas do produto para o Brasil em contentores refrigerados, por via aérea, para manter a qualidade do produto e fidelizar seus clientes brasileiros. Vendeu, coitado do holandês, sem garantia bancária. Tomou calote e faliu.

Questionado, o consultor brasileiro declarou que a falência do fabricante holandês comprovava a superioridade de sua estratégia de investimento em ativos financeiros abrigados em paraíso fiscal e, portanto, isentos de quaisquer tributos e riscos de calote. O holandês retrucou que esta situação, se ocorresse na Holanda, de uma pessoa aumentar sua fortuna com suas decisões como ministro, configuraria no mínimo conflito de interesses e, comprovado o dolo, crime financeiro, sujeito a demissão, julgamento, condenação e prisão.

Moral da história: não adianta procurar. Não tem.

PauloM

Blog dialogosessenciais.com

Thiago de Mello

Por Eric Nepomuceno (jornalista e escritor)

Um adeus: Thiago de Mello
Uma homenagem ao poeta Thiago de Mello, falecido nesta sexta-feira (14).

Na manhã desta sexta-feira, 14 de janeiro, sou massacrado pela notícia de que um dos maiores e mais generosos corações que conheci na vida, o do poeta Thiago de Mello, parou de bater.

Amarga coincidência: também num 14 de janeiro, o de 2014, que caiu numa terça-feira, foi-se embora meu irmão Juan Gelman, o argentino que permanece como um dos maiores poetas do idioma castelhano dos últimos pelo menos 80 anos.

A última notícia que tive de Thiago de Mello foi através de um amigo que era parente próximo dele. Contou que sua memória, que sempre considerei infinita, estava indo embora rapidamente. E que isso acontecia justamente quando Thiago estava trabalhando num livro de memórias.

Pois agora essa memória se foi de vez.

Conheci Thiago de Mello em Buenos Aires, por onde ele passou rapidamente depois do golpe sangrento que liquidou Salvador Allende e a democracia no Chile, onde ele vivia exilado pela ditadura instalada em 1964 aqui no Brasil. Quem me levou para conhecer Thiago foi, sempre ele, o irmão mais velho que a vida me deu, Eduardo Galeano.

Lembro de um homem angustiado, indignado, mas cheio de fé na vida. Falamos do Brasil distante e de seus tempos chilenos, de sua amizade muito próxima com Pablo Neruda e Violeta Parra. De como foi ter traduzido Neruda para o português do Brasil e ter sido por Neruda traduzido para o castelhano. Falamos da sua dor por ter visto sua pátria adotiva ser destroçada.

Pouco depois ele foi para Lisboa, onde tornei a encontrá-lo em 1976, quando foi a minha vez de me refugiar de outro golpe sangrento, o do general Jorge Videla, que mergulhou a Argentina no breu.

A partir desse reencontro nos aproximamos para sempre. Mesmo quando passávamos um longo tempo sem nos ver, quando nos encontrávamos era sempre como se tivéssemos estado juntos domingo passado. Assim foi em Cuba, no México, em Manaus, no Rio, onde fosse.

Thiago de Mello foi figura crucial para a minha e muitas outras gerações, e não só no Brasil. Aliás, tenho a sensação de que ele foi e é muito mais incensado lá fora, na América Hispânica, do que aqui.

Tenho, sim, oceanos e cordilheiras de cálidas lembranças desse bom, generoso e solidário amigo.

Uma, porém, tem especial espaço na minha memória.

Foi em Lisboa, em meados de 1978. Tivemos uma longa e dolorosa conversa no modesto apartamento em que Thiago vivia.

Ele me contou, pedindo segredo, que ia voltar para o Brasil. Ainda não havia lei de anistia, e Thiago era odiado – com razão – pela ditadura.

Eu disse a ele que era uma loucura. Ele respondeu dizendo que naquela loucura havia dignidade e o direito de voltar ao seu país.

E então fez uma pergunta direta: “Vou chegar e vão me prender. Levo comigo minha caderneta de telefones e endereços. O seu nome está nela. Quer que eu borre?”.

Respondi que de jeito nenhum. Eu estava fora, não podia voltar, não podiam fazer nada comigo.

“Pense no seu pai, na sua família”, advertiu Thiago. Mantive minha resposta. Da mesma forma que mantive com ele minha amizade, e da mesma forma que agora, com sua partida, mergulho numa saudade amazônica.

Adeus, poeta. Matéria do 247

Luta contra os agrotóxicos: Lei Zé Maria do Tomé

Matéria que já rolou por aí mas que muito a pena a gente publicar novamente. “Conheça a lei Zé Maria do Tomé que proíbe pulverização aérea de agrotóxicos
Ceará é o único estado brasileiro que possui legislação que proíbe pulverização de agrotóxicos por aeronaves
Por Leandro Cavalcante*
Brasil de Fato | Fortaleza (CE)
Zé Maria do Tomé se voltou contra a prática da pulverização aérea e mobilizou luta contra o uso de agrotóxicos
Zé Maria do Tomé se voltou contra a prática da pulverização aérea e mobilizou luta contra o uso de agrotóxicos – Marilu Cabañas
Dentre tantas ameaças que impactam diretamente a vida dos povos do campo está a pulverização aérea de agrotóxicos, responsável por despejar grandes quantidades de veneno nas lavouras do agronegócio e que também contaminam o solo e os corpos d’água, bem como as pessoas que estiverem no caminho da chuva tóxica, acarretando graves problemas de saúde.

:: Há 10 anos, Zé Maria do Tomé era assassinado no Ceará por luta contra agrotóxicos ::

O Brasil todo sofre com os agravos da pulverização aérea, exceto um único estado, o Ceará, em função da aprovação da Lei 16.820 de 2019, que proíbe o despejo de agrotóxicos por aeronaves em território cearense. Trata-se de um grande e importante passo para a produção de territórios livres de veneno e com mais dignidade no campo.

A aprovação da Lei 16.820/19, chamada de Lei Zé Maria do Tomé, representou uma conquista muito importante para todas e todos que sofriam cotidianamente com os impactos da pulverização aérea de agrotóxicos em suas comunidades.

Na Chapada do Apodi, no leste do Ceará, isso era uma realidade constante e que tirava o sono e a saúde dos moradores, já que era comum a prática do despejo de agrotóxicos por aeronaves nas plantações de banana, e que por vezes banhava também os quintais, os reservatórios d’água e as casas das comunidades.

Empresas do agronegócio tinham na pulverização aérea a forma mais viável de expurgar veneno em seus cultivos de banana, expondo o ambiente, os trabalhadores e os moradores aos riscos de contaminação.

É nesse contexto que emerge a figura de Zé Maria do Tomé, um camponês que se voltou contra a prática da pulverização aérea e mobilizou as comunidades, entidades, movimentos populares e universidades na luta contra o uso de agrotóxicos. Por conta disso, Zé Maria foi assassinado, revelando a ganância dos poderosos do agronegócio em seu projeto de morte para a Chapada do Apodi.

Reunidos no Movimento 21 de Abril (M21), essas comunidades, entidades, movimentos populares e universidades, apoiadas em inúmeras pesquisas científicas, que atestaram os danos à saúde das pessoas e do ambiente em decorrência da contaminação por agrotóxicos, continuaram a luta de Zé Maria do Tomé e conseguiram, por intermédio do deputado estadual Renato Roseno (Psol), a aprovação da Lei 16.820/19.

Essa lei proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos em todo o estado do Ceará e foi pioneira no Brasil, representando uma grande esperança de territórios livres de veneno, sem o risco de as pessoas serem literalmente banhadas de agrotóxicos e terem seus alimentos e a água de beber contaminados.

A lei é uma garantia de um mínimo de dignidade para as populações camponesas que se veem ameaçadas pela invasão do alronegócio em seus territórios, com a expansão do latifúndio, da monocultura e do uso em larga escala de agrotóxicos.

Os efeitos dessa lei, vigente há apenas dois anos, são visíveis e significativos. Há um importante impacto positivo do ponto de vista ambiental e social na vida das pessoas que residem em comunidades cercadas pelo agronegócio, especialmente naquelas onde as monoculturas de bananas eram banhadas de veneno, como ocorria na Chapada do Apodi.

Só em saber que a contaminação por agrotóxicos não virá mais pelo ar já é motivo de grande alívio para as comunidades, diferente do que recentemente temos observado em outros estados pelo Brasil, como ocorreu no Maranhão, no Pará, em Goiás e no Rio Grande do Sul, para citar apenas os casos mais recentes, quando agrotóxicos foram lançados sobre as pessoas.

Nesse sentido, o Ceará é o exemplo a ser seguido no Brasil e no Mundo. É uma lei que garante a manutenção da vida nesses territórios vulnerabilizados pela ameaça do agronegócio e dos agrotóxicos.

Por isso é importante e necessário defendermos a Lei Zé Maria do Tomé, que vem sendo ameaçada por representantes do agronegócio que alegam perda de produtividade e redução das áreas cultivadas por banana, especificamente.

Todavia, essa alegação não se sustenta cientificamente, visto que dados divulgados pelo IBGE comprovam justamente o oposto. Em 2018, o Ceará produziu 337.636 cachos da fruta, em 2019 foram 406.334 cachos – dados da PAM/IBGE.

Já as projeções para 2020, segundo dados do LSPA/IBGE, apontam que a produção de banana pelo Ceará chegou aos 430.336 cachos. Ou seja, um aumento de 100.000 cachos em dois anos, antes e depois da aprovação da Lei, em 2019.

Apenas de posse desses números, e com uma análise rápida, é possível contrapor o discurso defendido pelo agronegócio, de modo a demonstrar que a lei não impactou de modo negativo diretamente a produção de banana no Ceará, muito pelo contrário.

Apesar da grande importância da lei, fruto de muita luta do ativista Zé Maria do Tomé, dos coletivos que compõem o M21 e do mandato do deputado estadual Renato Roseno, é preciso que faça muito mais.

Apenas proibir a pulverização aérea de agrotóxicos não é suficiente para impedir o aumento do consumo de veneno nos cultivos agrícolas, como observado em todo o país.

É preciso que haja políticas públicas e uma legislação específica que reduza progressivamente a utilização de agrotóxicos, ao passo que incentive e potencialize a produção de alimentos orgânicos e agroecológicos.

Não há como descansarmos enquanto for permitido o uso de veneno nas plantações, já que não haverá saúde para os trabalhadores do campo, os moradores das comunidades e os consumidores dos alimentos contaminados.

Defender o fim do uso de agrotóxicos é, antes de mais nada, ter um compromisso com a vida! Viva a Lei Zé Maria do Tomé e a luta contra os agrotóxicos!”

*Leandro Cavalcante é professor da UFRN, Doutor em Geografia e Ativista do M21

Compartilhado do Facebook do João Lopes.

Brasil, o país que pula as 7 ondinhas em homenagem a Iemanjá e odeia as religiões afro 

Tradição de pular as 7 ondas na virada de ano é associada às religiões de matriz africana no Brasil

Texto / Pedro Borges I Imagem / Projeto Anima Afro

Publicado em almapreta.com

Quem passa a virada de ano no litoral e escolhe a praia para celebrar a passagem com amigos e familiares costuma ter um ritual: ir para a beira do mar pular 7 ondas e pedir um desejo para cada uma delas.

O ato, uma homenagem à orixá do mar e das águas, Iemanjá, trata-se de uma cerimônia mais próxima ao culto da Umbanda, uma das religiões afro-brasileiras. O ritual é uma forma de desejar melhores momentos para o ano que se aproxima e deixar para o passado os problemas do ciclo que se encerra.

Felipe Brito, Ebomi do Ilê Maroketu Axé Oxum (SP) e diretor geral da Ocupação Cultural Jeholu, recorda que o número 7 também tem uma relação direta com diversas tradições das religiões afro.

“Pensando na simbologia do número 7, que na Umbanda tem muito a ver com o universo das entidades chamadas de Exu, os guardiões, como 7 Encruzilhadas, 7 Pombagiras, 7 Saias, 7 Caldeiras, entre outras entidades, que cuidam dos caminhos e apresentam novas possibilidades e renovação”, explica.

O nome Iemanjá tem origem Iorubá, que é a soma das palavras yèyé, omo e ejá, que juntas significam a mãe cujos filhos são peixes. Iemanjá, a senhora das águas, dos rios e dos mares, é uma figura religiosa consagrada no Brasil, em especial por conta da devoção dos pescadores com essa divindade, que pediam para ela uma boa pesca. 

A orixá é também responsável por trazer calma e tranquilidade ao Ori, que nas religiões de matriz africana é o nome utilizado para se referir à cabeça de cada sujeito. 

“Iemanjá é aquela que cuida do Ori, aquela que acalma as cabeças que estão com alguma perturbação, que estão sofrendo de algum mal mental, emocional. Ela é sempre vista como a mãe de todos os orixás, como a grande mãe”, conta Felipe Brito.

Racismo Religioso

Questionado sobre o atual momento do país, de fortalecimento do fundamentalismo religioso evangélico e de ódio às religiões de matriz africana, Felipe Brito fez uma ressalva. “A questão do racismo em relação às comunidades de terreiro é um processo histórico e contínuo, que toma formas diferentes em cada época”. 

Ele aponta, contudo, a existência de um momento conturbado no país, em especial no Rio de Janeiro, onde há um cenário de invasão dos terreiros.

“São muitas as violações de direito às comunidades de terreiro no Brasil. Com essa nova categoria que foi criada, se é que assim pode ser chamado, dos traficantes de jesus, os traficantes evangélicos. é um fenômeno brasileiro, que usa de um discurso de ódio e da força do crime organizado para expulsar os terreiros e as comunidades de matriz africana das comunidades fluminenses”.

De acordo com dados do Disque 100 apurados pelo Gênero e Número e pelo DataLabe, 59% de todos os casos de violência religiosa registrados entre 2011 e junho de 2018 eram destinadas às religiões de matriz africana, caso da umbanda e do candomblé. O Disque 100 é um canal, criado em 2011 pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, para receber denúncias de violação de direitos humanos no país.

Diante de números expressivos de ódio contra as religiões de matriz africana, Felipe Brito acredita que as pessoas aceitam pular as 7 ondas, uma tradição ligada à Umbanda, por entenderem figuras como Iemanjá como uma pessoa branca. Para ele, símbolos religiosos da comunidade negra foram “embranquecidos” pela cultura nacional.

“Quando procuramos entender como que em um país extremamente racista como o Brasil, essas pessoas conseguem ao final do ano pular 7 ondas, sendo que grande parcela da população repudia qualquer manifestação religiosa que não seja cristã, precisamos entender a partir um único aspecto: Iemanjá é branca na cabeça das pessoas”, afirma. 

Para ele, em um cenário de ódio contra as religiões afro, o ritual de pular as 7 ondas não é uma referência à ancestralidade negra. “O pular 7 ondas não é um ato para a Iemanjá do povo Iorubá, africana, nigeriana, negra. Você está pulando para aquela Iemanjá idealizada branca do cabelo preto, escorrido, liso até a cintura, com o corpo fitness. Uma Iemanjá extremamente padronizada e eurocêntrica”, completa.

Papa Francisco x Arautos do Evangelho

Lucia Helena Issa31 de dezembro de 2021 às 12:55 

Logo que voltei a viver no Brasil, depois de seis anos na Itália, fui convidada por um amigo a conhecer, na Serra da Cantareira, em São Paulo, um castelo medieval fundado por um grupo católico no coração da floresta, um castelo que só horas depois eu descobriria ter sido fundado pelos ultraconservadores Arautos do Evangelho, uma associação católica nascida do conflito entre os dirigentes do grupo extremista TFP, ou Tradição, Família e Propriedade.

O castelo, naquela tarde de tempestades outonais, me remeteu imediatamente às Cruzadas, às invasões, ataques, roubos e assassinatos de milhares de muçulmanos palestinos, iniciados por nós, cristãos, em Jerusalém, na Palestina. Os uniformes militares das crianças presentes, os gritos e a atmosfera medieval foram tão assustadores para mim quanto as histórias e depoimentos que fui descobrindo e ouvindo, como jornalista, nos anos seguintes, relatadas pelos pais dos jovens e crianças que ali estudavam.

Mães de origem humilde ou de classe média se encantaram com a possibilidade de seus filhos estudarem gratuitamente, num castelo, com uniformes medievais, princípios católicos e disciplina militar.

O que parecia um sonho para elas, transformou-se em um dos maiores pesadelos da história da educação católica no Brasil, com os dirigentes da “escola” hoje acusados de violência, abusos psicológicos, alienação parental, instigação de intolerância religiosa e abusos sexuais. O Ministério Público de São Paulo já acolheu mais de cinquenta denúncias, quatro delas envolvendo abusos sexuais e morais. Vídeos já veiculados na grande mídia comprovam uma série de abusos morais, desrespeito pela família de alguns alunos, uma disciplina militar extremamente violenta e até um vídeo em que o fundador do grupo católico extremista, o Monsenhor João Clá Dias, ex membro da TFP, insulta o Papa Francisco com palavras bem pesadas, e simula um diálogo patético com o Diabo, como se Satanás em pessoa estivesse ali e afirmasse que Francisco obedece às suas ordens, enquanto o extremista bolsonarista João Clá Dias seria o enviado de Deus para aquela comunidade.

LEIA: Relembrando o assassinato de Vladimir Herzog

Os casos de jovens ex-alunos são gravíssimos e vão de castigos físicos impostos por Monsenhor João Clá aos abusos perpetrados por outros membros e à morte de uma menina, que segundo seus pais teria se suicidado dentro da instituição.

À medida em que mais depoimentos surgem contra o grupo extremista católico, os Arautos do Evangelho aumentam o tom nos seus ataques ao papa Francisco, aos pais que conseguiram na Justiça o direito de resgatar os filhos dos castelos, onde todos viviam em regime de internato e sem direito de visitar os pais frequentemente, e toda a ala mais humana e mais progressista da igreja Católica em toda a América Latina, onde o grupo vem fundando suas escolas desde 1997.

Diante de tantos depoimentos sobre os abusos, vídeos e provas de que os alunos não podiam sequer ter contato telefônico com seus pais, Francisco determinou o fechamento de todas as escolas fundadas pelo grupo extremista em várias cidades do mundo e nomeou D. Raimundo Damasceno como interventor dos Arautos do Evangelho, enquanto as investigações das autoridades e do Vaticano continuam.

Enganam-se os brasileiros que acreditam que apenas entre os cristãos evangélicos há líderes religiosos que alimentam a intolerância, o ódio, a islamofobia e o racismo em geral.

O ódio, o filho mais velho da ignorância, vem sendo alimentado por extremistas cristãos de várias denominações, inclusive na minha Igreja Católica, e tem nos catapultado para os círculos medievais do Inferno descritos por Dante.

Os ataques do monsenhor João Clá Dias, em seu falso diálogo com o Diabo, apenas confirmam que um dos maiores alvos dos Torquemadas atuais tem sido um dos mais iluminados de todos os homens que já ocuparam o pontificado em Roma e o trono de Pedro. Francisco, o homem que lavou os pés de um grupo de moradores de rua e os recebeu no Vaticano, o homem que trocou a luxuosa “sedia gestatória” por uma cadeira de imensa simplicidade ao assumir seu pontificado, o homem que surpreendeu o mundo ao usar um crucifixo de franciscana simplicidade, o homem que pede que a Igreja seja a porta-voz da tolerância, do acolhimento aos refugiados e do diálogo entre as religiões, o homem que pede aos católicos menos julgamentos e mais empatia pela dor do outro, o homem que tem lutado pelos direitos dos refugiados de guerra, dos negros, e de todos os excluídos, o homem que eu tive a honra de conhecer na coletiva de imprensa durante a Jornada Mundial da Juventude em 2013 aqui no Rio de Janeiro, tem sido alvo de ataques protagonizados pelos mais abomináveis religiosos da minha Igreja Católica, homens da extrema-direita mais mercenária, subordinada aos interesses do Apartheid de Israel e aos princípios mais distantes da mensagem de Cristo que se possa imaginar. Morei em Roma durante seis anos, escrevi matérias sobre o Vaticano para a Folha de São Paulo e também escrevi um livro-reportagem, o “Quando amanhece na Sicília” , em que relato a histórica relação entre padres e bispos de extrema-direita em Roma, os mafiosos da Cosa Nostra, e a misteriosa morte do Papa João Paulo I, assassinado dentro do Vaticano em 1978 e que exerceu o pontificado por apenas 33 dias.

Testemunhei tristemente nos anos 2000 como agem em Roma ou em São Paulo os católicos que promovem o ódio religioso, o assassinato de muçulmanos na Europa e o negacionismo que mata.  Os autores dos ataques ao Papa Francisco, pessoas como o Monsenhor João Clá Dias, como o italiano Carlo Maria Vigano, o norte-americano Burke e o brasileiro Olavo de Carvalho representam o que há de mais desumano, repugnante e hipócrita dentro do catolicismo atual.

LEIA: Tristeza: os imensos retrocessos da relação Brasil- Palestina em 2021

Homens como o fundador dos “Arautos do Evangelho”, João Clá Dias, doutrinam adolescentes a odiar os mais pobres, os progressistas e os negros, ensinam a odiar o que há de mais humano no legado de Cristo, o amor e a empatia pelos mais vulneráveis, pelos diferentes, pelos de outra religião, pelos imigrantes, e pelos que vivem à margem da sociedade.

Os extremistas cristãos alegam que Francisco tem sido “tolerante demais com os homossexuais do mundo”, ou que tem sido “conciliador demais na questão dos refugiados muçulmanos”.

São apenas hipócritas que jamais se perguntaram de que lado Jesus estaria hoje.

Cardeais, padres, leigos e monsenhores católicos ultraconservadores têm encontrado amplo apoio em falsos  “cristãos” como Olavo de Carvalho, o sujeito que chegou a excomungar Francisco, sem nenhuma autoridade para isso, provocando apenas subordinações bovinas por parte de seus seguidores  ou desprezo por parte de quem decidiu seguir os passos de Jesus.

Como católica praticante, deixo aqui meu imenso repúdio aos cristãos hipócritas e malignos como o fundador do grupo “Arautos do Evangelho” e minha imensa solidariedade e empatia ao Papa Francisco.

O incrível “exército” do capitão Brancaleone

Segundo muitos historiadores, o Século XIV foi marcado, na Europa, pelo trinômio peste, guerra e fome, indicando o começo da decadência do feudalismo.

O incrível exército de Brancaleone, filme de Mário Monicelli, de 1966, discute, de forma satírica, essa decadência das relações sociais dentro do feudalismo. Trata-se de um exército pequeno e esfarrapado, comandado por um capitão ingênuo e lunático. O capitão Brancaleone reivindica para si uma alegada herança a um feudo. Para isso, Brancaleone recorre ao apoio de um pequeno grupo de soldados mal preparados, a quem o capitão chama, sério, de “meu exército”.

A falta de coragem de Brancaleone e seu “temido exército” causam situações humorísticas, enquanto o grupo de aventureiros mal preparados busca realizar seus objetivos: combater a peste negra, a fome, os sarracenos, os bizantinos e os bárbaros.

Embora eu não veja nenhuma graça na situação político-institucional do Brasil sob o comando do capitão lunático, enxergo semelhanças entre as situações. Ora, tem algo mais ridículo, em pleno Século XXI, que um grupo de uniformizados em trajes militares que sai desfilando no asfalto com veículos blindados e tanques para entregar um convite ao tal capitão?

Talvez o tal capitão esteja tentando amedrontar seus inimigos quando, ele mesmo, está morrendo de medo sobre o que o futuro lhe reserva. Isto não deixa de ser hilário, digno de Brancaleone e seus assustados soldados.

Bom, as semelhanças se encerram no ridículo de cada uma das situações, pois enquanto o ingênuo e idealista capitão Brancaleone e seu exército do Século XIV buscavam lutar contra a peste, a fome e a barbárie, o lunático capitão e “seu exército” lutam, em pleno Século XXI, ao lado desses mesmos inimigos.

Um olho de vidro na guerra

Um olho de vidro na guerra

Por Abrao Slavutzky|29/05/21|Artigo, Crônica

Entre os livros sobre a Segunda Guerra Mundial, há os que narram histórias incríveis ocorridas na retaguarda, como o Kaputt. Livro escrito pelo jornalista italiano Curzio Malaparte, que esteve presente na invasão alemã da Europa Oriental. Numa obra com mais de 400 páginas, repleta de acontecimentos dramáticos, a mais famosa do livro, ocupa quatro páginas. É uma história sobre um oficial nazista que tinha um olho de vidro, que comandava um pelotão em 1941 na Ucrânia. Transcorreu durante a ofensiva alemã que deu início à derrocada do poderoso Terceiro Reich.

Havia bandos de guerrilheiros nos bosques e nos brejos ao longo do rio Dniepre e se escutavam tiros e, às vezes, rajadas de metralhadoras. Uma coluna de artilharia alemã percorria uma aldeia silenciosa, com cavalos mortos, alguns amarrados num clima sinistro. Um oficial cavalgava à frente de seu grupo num entardecer cinzento, quando se escutaram tiros de fuzis. Os tiros dos guerrilheiros desencadearam reação imediata do oficial, cuja ordem foi de pôr fogo em toda a aldeia.

As casas de madeira começaram a queimar e logo tudo foi dominado pelo fogo, os tiros foram diminuindo de intensidade. Havia muitos mortos estendidos no chão, alguns alemães tombaram, e de repente, no meio da fumaça, aparece alguém correndo com as mãos para cima. Logo o guerrilheiro é agarrado e percebem que é um menino, de não mais de dez anos, magro, sujo, com a roupa esfarrapada e o rosto preto de fumaça. O oficial olha o menino e lembra que em Berlim tem um filho com uma idade parecida, e chama um intérprete que fala russo e pergunta:

– Por que atiraste contra os meus soldados?

O menino fica quieto e a pergunta é repetida algumas vezes até que ele responde com calma, sem medo, com certa indiferença, em posição de sentido.

– Já o sabes, por que me perguntas?

– Sabes quem são os alemães? – pergunta o oficial.

– Acaso tu também não és alemão? – replica o preso.

O oficial, irritado com as respostas, decide matar o menino, mas de repente muda de ideia e, incomodado, diz ao prisioneiro:

– Eu não quero fazer-te mal, és uma criança, eu não faço guerra às crianças, mesmo que tenhas atirado contra os meus soldados. Escuta, eu tenho um olho de vidro. Se souberes dizer, sem ficar pensando, qual dos dois olhos é o de vidro, ponho-te em liberdade.

– O olho esquerdo.

– Como conseguiste percebê-lo?

– Porque, dos dois, é o único que tem qualquer coisa de humano.

Essa história revela a coragem e a sagacidade de um menino de dez anos que vale a pena conhecer. E a humanidade do oficial, que deu uma chance para o jovem guerrilheiro viver, portanto, há militares capazes de humanismo. Malaparte conclui assim o capítulo: – Todos os alemães têm um olho de vidro.

O Brasil está sendo atacado tanto pela pandemia como pelo governo mais olho de vidro da sua história. O passado elitista do país retornou com uma frieza mortífera assustadora. Um povo abatido começa expressar seu desejo humanista, em busca de justiça, numa sociedade em que a liberdade e a segurança nacional sejam para todos. A história do menino corajoso em plena guerra, me fez lembrar que há vida no meio das dores e mortes. É preciso despertar da letargia, lentamente nos levantaremos para não sucumbir à mediocridade. A construção de uma vida poética passa das decepções à imaginação de novos horizontes.


Publicado originalmente no facebook do autor.

Por

Abrao Slavutzky

Psicanalista, autor de vários livros, entre eles: “Psicanálise e cultura”, “Para início de conversa”, com Cyro Martins, “Quem pensas tu que eu sou”, “Humor é coisa séria”, entre outros.

Publicado em terapiapolitica.com.br

Os militares se aprontam para as eleições

Sábado, 17 de julho de 2021
Braço forte, e-mail amigo

Os militares se aprontam para a eleição do ano que vem.

Um alto oficial do Exército mandou que fosse distribuído esta semana um questionário elaborado por três instituições privadas e que servirá para “criar condições objetivas para o Brasil proporcionar um futuro de justiça e felicidade ao povo brasileiro”. O e-mail, enviado por um coronel a pedido do general Valério Stumpf Trindade, comandante militar do Sul,  encaminha uma pesquisa de algo chamado de “Projeto Nação”. 

Sim, é exatamente o que você pensou: uma espécie de plano de governo para o país, elaborado com a colaboração de militares da ativa por institutos privados que pertencem, também, a militares. Ele nasceu das mentes de um militar de extrema direita chamado Luiz Eduardo Rocha Paiva e de uma figura da várzea política chamada Thomas Korontai.

Korontai vive em Curitiba,  já tentou ser candidato a presidente da República em 2018 (mesmo sem ter um partido legalmente registrado) prometendo extinguir o MEC, encabeça um tal Instituto Federalista e espalha fake news sobre o voto eletrônico no Brasil e a fraude inventada eleitoral por Donald Trump nos EUA aos poucos seguidores que possui nas redes sociais.

Mas o nonsense se revestiu de alguma seriedade quando foi abraçado pelo Instituto Villas Bôas, criado pelo general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante geral do Exército, autor do tweet que ameaçou o Supremo Tribunal Federal na véspera do julgamento de um habeas corpus de Lula, em 2016. Jair Bolsonaro já disse que foi Villas Bôas quem o elegeu presidente em 2018. 

O site do Instituto Federalista dá uma pista da entrada de Villas Bôas na jogada: “Através do Instituto Sagres, tivemos conhecimento [de] que o general Villas Boas, ex-comandante do Exército, sentia a necessidade e trabalhava no sentido de criar um instituto [e] que entre suas finalidades estava a elaboração do referido projeto. Assim, as três entidades uniram-se com o objetivo de elaborar um projeto de nação para o Brasil”.

 

Os militares e seus negócios

O Instituto Sagres é uma empresa fundada por militares da reserva para ganhar dinheiro em Brasília. Uma entre várias, como, por exemplo, o Instituto Força Brasil, investigado no inquérito das fake news e, desde a quinta passada, suspeito de participar de negociatas na compra de vacinas pelo governo Bolsonaro. 

O Sagres diz fazer “pesquisas em política e gestão estratégica” e formalmente é uma organização da sociedade civil de interesse público, o que lhe garante inúmeras benesses tributárias. Na prática, faz lobby – produziu publicações patrocinadas pela Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais – e vende enigmáticos serviços de consultoria a órgãos públicos, majoritariamente. Também já andou enroscado na operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas.

Tem também ligações partidárias com a extrema direita: um ex-presidente (e atualmente membro do conselho consultivo) coordenou a bancada legislativa do PSL no Rio Grande do Sul e aventou uma candidatura a prefeito no interior do estado. Mas quem interessa para nossa história é o “diretor de geopolítica e conflitos”: o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva.

Fã do torturador Brilhante Ustra, Rocha Paiva é dado a chiliques golpistas. No mais recente, de 8 de março passado, afirmou em texto reproduzido pelo Clube Militar que “aproxima-se o ponto de ruptura” após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin que retirou da Justiça Federal de Curitiba os processos contra Lula, “uma criatura deplorável”.

É justamente Rocha Paiva o responsável pela “Concepção do Projeto Nação”, expressa num PowerPoint de causar inveja a Deltan Dallagnol e disponível no site do Sagres. O documento de 11 páginas é um amontado de platitudes que não se aprofunda em coisa nenhuma, mas deixa entrever temas caros à extrema direita. Na projeção otimista, produzirá uma conclusão em fins de 2021, a tempo, portanto, de alimentar uma candidatura presidencial – ou ser vendida a algum incauto (como o governo). 

É para municiar tal conclusão que servirá a pesquisa distribuída por ordem do general Stumpf. E tão ou mais importante que ela é o uso de um canal oficial e do prestígio do Exército para dar propulsão a um negócio que deveria ser privado e correr fora do ambiente da caserna.

Eu telefonei ao coronel Brisolla, o autor do e-mail, para lhe perguntar a respeito. Ele se mostrou contrariado ao saber que o e-mail havia vazado. “Só mandamos para aqueles que são da nossa rede de colaboradores”. Mas acabou falando – talvez até demais.

“[A pesquisa] É para formação de um cenário prospectivo, que vai dar condições para ajudar o público privado e a área pública. Trabalhamos no Exército com planejamento estratégico. Esse instituto [Sagres] quem compôs são militares. E [também o instituto] do general Villas Bôas. A gente tem ligação com esses institutos que trabalham com gestão política e administração”.

Brisolla foi adiante: “Planejamento é para a nação, não para partido político. Somos totalmente contra a política, políticos. Não temos viés ideológico”, garantiu-me, deixando claro qual o viés ideológico e o futuro – nada democrático – que imagina para a nação.

Valério Stumpf Trindade é um general de quatro estrelas que nasceu e fez boa parte da carreira no Sul do país – ou no Terceiro Reich, jargão interno usado para se referir a militares do Terceiro Exército, atual Comando Militar do Sul. É tido como sujeito extremamente conservador. E, como veremos, leal a suas raízes.

O Rio Grande do Sul é um estado onde o Exército sempre teve presença marcante, em tamanho e influência, por causa da fronteira porosa com Uruguai e Argentina. Não à toa, é terra natal dos ditadores Emílio Garrastazu Médici, Artur da Costa e Silva e Ernesto Geisel. Também são gaúchos Eduardo Villas Bôas e outro personagem importante nesse quebra-cabeças, Sérgio Etchegoyen.

Etchegoyen é amigo de infância de Villas Bôas (ambos nasceram em Cruz Alta), de quem se tornou uma espécie de guarda-costas após vê-lo acometido pela triste doença degenerativa que hoje o faz dependente de um respirador artificial. Foi também responsável por revisar e sugerir alterações no livro-entrevista em que Villas Bôas narrou suas memórias.

Além disso, Etchegoyen era chefe do estado-maior do Exército (espécie de número dois da força) quando foi um dos fiadores da derrubada de Dilma Rousseff – por quem passou a nutrir profundo rancor após a inclusão do nome do pai dele no relatório da Comissão Nacional da Verdade – e do governo tampão de Michel Temer. Deixou o posto para assumir o Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, recriado por Temer. E em dado momento chamou, para ser seu secretário-executivo, o general Stumpf.

Etchegoyen e Villas Bôas são dois dos pontas de lança do movimento que abraçou o capitão reformado Jair Bolsonaro, dono de uma lamentável ficha funcional na força, para recolocar o Exército na política brasileira. Outro é Augusto Heleno, atual titular do GSI, onde Villas Bôas tem cargo de assessor especial. Tudo em casa.

O governo dos militares deu no que estamos vendo: 540 mil mortes por covid-19, boa parte delas evitável, graças à combinação de burrice, teorias da conspiração, negação da ciência, defesa de tratamentos sem eficácia nenhuma e suspeitas em série de corrupção na compra de vacinas, com uma penca de coronéis – e talvez um general – envolvidos. Mas o e-mail descabido e desavergonhado do general Stumpf indica que o buraco em que atiraram o país aparentemente não fez os militares recuarem de seu projeto político ou os tornou mais zelosos da separação desejável entre negócios públicos e privados. Muito pelo contrário.

Enviei perguntas ao comando-geral do Exército sobre o uso da ascendência e do prestígio da corporação para um projeto político dos institutos privados. Não houve resposta até a hora de enviarmos essa newsletter.

Rafael Moro Martins

Editor Contribuinte Sênior

Quem é o patrão de um brigadeiro?

O brigadeiro da aeronáutica falou. Respondeu à altura. Disse que as autoridades não vão tolerar mais desafio. Quem são as autoridades? Ele. Ele próprio. E disse mais. Disse que tem armas não ameaça. Que quer isto dizer? Vai direto às falas? Usa as armas? Dá tiro?

Ora, brigadeiro. Que história é essa? Quem te deu armas foi o povo brasileiro. Para defender a nação. Não para atacá-la E que diabo é isso de falar em autoridade?

O senhor é mais bonito que os outros? Não aguenta crítica? Não se pode mais falar na sua frente, em público, que tem banda podre nas forças armadas? Por acaso elas são diferentes? São todas puras, limpas, inocentes. Só querem o bem? E também picanha, camarão, leite condensado de sobremesa? Ou fazer como o seu chefe, Jair, que faz um furinho na lata e chupa?

O senhor pode gostar. Tem todo o direito. Mas não com o dinheiro do povo. Prá isso tem salário, todo mês. Grana preta. Acho que se for realmente macho, como quer aparentar, devia por, ao lado de sua declaração decidida, uma foto do recibo que assina, com o seu rendimento mensal.

E esclarecer quem paga a sua moradia, a gasolina que gasta com seu carro e o da sua mulher. Seria bom também esclarecer se Vossa Excelência anda no seu próprio veículo ou também é da Força Aérea. Inclui também soldadinho, vai ver que até cabo, sargento, para dirigi-lo por aí. Prá não gastar as mãos. Ah, agora lembro, vai ver que, como é da Força Aérea, anda de helicoptero e jatinho. Pagos por quem?

Sabemos que é muito ocupado. Tem que bater papo diariamente com os colegas, outros brigadeiros do ar. Refletir sobre a corrupção dos políticos. Principalmente os que acham que Vossas Excelências não passam de um bando de inúteis. A conspirar, a vida inteira, contra a democracia. A passear de graça pelo país. Fora dele também. Nas missões oficiais. Em que conversa com os demais brigadeiros, comandantes das marinhas do continente e do exército, esses últimos sim, são os que mandam mais.

Sei que adoram falar inglês, o seu é macarrônico, mas faz visage para os indígenas aqui deste lado, quando se encontra com os chefes lá de cima. Dos quais tem muita inveja. Eta equipamento bom tem eles. Dá inveja, eu sei.

Brigadeiro, quero informar. Que admiro muito os seus uniformes vistosos. Os cordões dourados. Os botões de ouro (ou será que são de lata pintada?) do seu fino casaco. Aquelas plaquinhas coloridas, que representam os seus cargos, as promoções, as posições que ocupou sem fazer nada. Tudo para impressionar quem? Quanto tempo gasta o senhor para pregar esses botões, as plaquinhas, os cordões? Uma curiosidade, brigadeiro. Não fique zangado, apenas responda. Debaixo do uniforme também tem distintivo. A cueca é colorida ou de listinhas? Sempre quis saber esses detalhes, vamos dizer, íntimos, das grandes autoridades.

E a lista as suas atribuições, brigadeiro? Tem lá uma linha que inclui rosnar, bancar o macho, virar o cano da sua arma para o povo, e atirar? Ou é so fazer cara feia e ameaçar?

Ah, brigadeiro, gostaria tanto de passar uma hora ou duas com o senhor. Numa mesa, talvez até com um chazinho, de erva cidreira, coisa simples. E fazer essas perguntas, num clima de paz. Conseguir as respostas, gravar e publicar. Prá mostrar o que é que o senhor realmente pensa da vida, e saber o que e que a sua mulher pensa do senhor.

Incluiria até perguntar o que o senhor, fez no banheiro, quando se isola, portas fechadas prá dejetar. Ia perguntar se é da mesma cor que o que expele o trabalhador, a dona de casa que sofre prá pagar o gás. O cheiro é o mesmo? Ou é perfumado?

Já que é estudado, queria também aprender. O que acontece com brigadeiro quando morre? É embalsamado, colocado em sarcófago, com muitas resinas. Depois vai prá uma pirâmide? Prá ser estudado daqui a cinco mil anos? Ou vai direto para o céu?

Queria saber o detalhe, a diferença entre o homem do povo e a autoridade. Será que tem?

Não vou fazer como o Felipe Neto, aquele rapaz das redes, bem sucedido. Acho que até melhor que o senhor. Que o mandou para aquele lugar. Sou educado, respeitoso, velhinho. Só sou curioso. Diga ai, brigadeiro. Pode falar. Sem ameaçar.

Do Facebook de Roberto Garcia

Corrupção e o Estado capitalista

Do professor Luis Felipe Miguel

Tem um negócio curioso na forma como o Brasil lida com a questão da corrupção.

A corrupção é aceita como o grande mal do país. É a única mácula indelével para uma pessoa pública.

Taí o caso do Bolsonaro. Pode ser miliciano, genocida, defensor da tortura, nostálgico da ditadura. Pode ser burro e despreparado. Pode liquidar os direitos, destruir o serviço público, afundar a economia, entregar o país. Pode fazer o povo passar fome. Pode ser racista, misógino e homofóbico.

Mas a chapa esquenta mesmo quando aparece a roubalheira.

Ao mesmo tempo, o combate a corrupção se torna uma espécie de Negresco da política: justifica tudo. Justifica o punitivismo. Justifica o desmonte do Estado. Justifica o apoio à Lava Jato, o apoio a Bolsonaro.

No entanto, o mesmo discurso que tanta ênfase dá ao combate à corrupção evita cuidadosamente chegar às suas causas estruturais, que incluem, centralmente, a relação entre o poder público e os capitalistas e a divisão do trabalho político, que condena a maioria da população à posição de clientes do Estado.

Assim como evita, de forma igualmente cuidadosa, associá-la à sua irmã gêmea, a sonegação.

O fato é que a corrupção aparece como o problema número 1, mas só se cogitam soluções parciais e insuficientes: a punição do culpado, como se fossem maçãs podres que estivessem contaminando a cesta. E o surgimento do líder impoluto que por mágica regeneraria o sistema.

Em suma: o discurso do combate à corrupção contribui para piorar, e muito, o debate político. Em vez de buscar as questões estruturais, ele desvia a atenção para as falhas morais.

O caso Covaxin é mesmo muitíssimo grave – e tem a peculiaridade de fundir a corrupção com o descaso pela vida dos brasileiros.

Se ele fragiliza o atual governo, se torna mais difícil a manutenção de seus apoios, se alcança a consciência daquele ser mítico (o bolsonarista “estúpido porém sincero”), em suma, se permite vislumbrar a antecipação do fim deste pesadelo – então, ótimo. Temos mesmo que fazer bastante barulho sobre ele.

Mas é importante não esquecer que o trabalho de educação política – que terá que ser feito, se quisermos um dia edificar uma democracia menos frágil e menos limitada – exige reduzir esta centralidade e colocar a questão da corrupção dentro do cenário mais amplo do funcionamento do Estado capitalista.

Teto de gastos, tripé macroeconômico e baratas

Essa semana, Tabata Amaral, Kim Kataguiri, Marcel van Ratten e outras jovens promessas da política brasileira, além das decepções de sempre, assinaram uma carta, endereçada à equipe econômica do governo, manifestando preocupação com uma questão que, hoje, é, de fato, rigorosamente vital: a manutenção do teto dos gastos. O receio dessa trinca de bons alunos é que o aumento das despesas públicas exigidas pela pandemia, incluindo aí o pagamento do auxílio emergencial, acabe salvando tantas vidas que o teto de gastos pode desabar sobre nossas cabeças.

Em editoriais dos jornalões e nas colunas dos seus escribas de aluguel, não passa um dia sem que se esconjure a possibilidade nefasta de o Estado “intervir” na economia para, de algum modo, atenuar os impactos decorrentes da pandemia. A conta, eles dizem, vai chegar. O remédio, eles dizem, será amargo. Imagino que eles já tenham precificado em dólar o valor de 310 mil vidas perdidas e que eles estejam considerando o fuzilamento em massa como remédio amargo. Ou, para fazer menos barulho, deixar que as pessoas, sem acesso a benefícios monetários assistenciais, morram de fome.

Não há nada mais alucinatório e alienante que o discurso de “salvar economia”. É como se os parâmetros capitalistas que regem o funcionamento da economia fossem as condições naturais de existência das quais a vida humana dependesse. A vida precisa estar a serviço da economia, e, se quiser seguir gozando as extraordinárias bênçãos que ela nos oferece, deve fazer sacrifícios ao deus-mercado. O mercado descontente pode ser tão implacável quanto Jeová no Antigo Testamento.

Essa economia que parece girar por si mesma e à qual devemos servir é, entretanto, operada por grandes agentes econômicos, financeiros, empresariais bem visíveis, aliás onipresentes. A principal estratégia ideológica através da qual esses agentes impõem seus interesses econômicos à sociedade, convencendo-a de que os interesses deles coincidem com os interesses de todos, é justamente esta: representar a economia como uma entidade autónoma, regida por leis próprias, que não podem ser contestadas e às quais devemos nos submeter como se disso dependesse nossa própria vida.

Não é nada tão difícil de fazer, quando se tem toda a grande imprensa reiterando diuturnamente esse discurso e advertindo para o caos devastador que nos assolaria, caso não aceitássemos a palavra da salvação. O teto de gastos, por exemplo, aprovado anteontem, já é tratado, pelos jornais, como uma fatalidade natural.

Zizek disse uma vez que as pessoas acreditam mais na possibilidade do fim do mundo que no fim do capitalismo. De fato, quando o próximo meteoro vier, só restarão de pé o teto de gastos e o tripé macroeconômico. E as barata.

Por Alexandre Arbex

Marinaleda

As paredes brancas cobertas de murais

Perguntando a sua citação de Cristo entre os seus heróis, ele nos explica que vê Cristo como o primeiro comunista. “Cristo era um revolucionário, e assim eles se livraram dele. Cristo o pacifista, Cristo o agitador, o reformador que declarou que o reino de Deus está dentro do homem, não em outro lugar, e certamente não dentro de um papa”.

É esta tradição social cristã, a mesma desenvolvida pela Teologia da Libertação na América Latina, que Gordillo reivindica. Ele insiste que “o cristianismo e o marxismo, o cristianismo e o comunismo são perfeitamente compatíveis”, e reconhece o papel de um elemento mais profundo — pessoal ou espiritual — no humanismo político, demonstrando que, em contraposição aos projetos neofascistas ou da “supremacia teológica”, pode-se reconstruir uma tradição cristã progressista. 

Marinaleda e a Solução Cooperativa

Os sucessos sócio-econômicos da aldeia, como o pleno emprego, salários igualitários de 1200 euros por mês (aproximadamente 4450 reais) em jornadas de 6 horas de trabalho ou a inexistência de polícia fazem-nos pensar sobre como o modelo cooperativo de Marinaleda seria transferível para outras regiões. O modelo cooperativo tem sido acompanhado por um sistema participativo no qual todas as decisões estratégicas do município são tomadas em uma Assembléia Popular, bem como as políticas de gestão de terras e habitação, oferecendo habitação a partir de 15 euros por mês (aproximadamente 66 reais)

O modelo cooperativista não apresenta inviabilidade estratégica. Em vez de canalizar lucros para executivos e acionistas que agregam pouco valor produtivo, uma cooperativa reinveste no capital da empresa, permitindo-lhe prosperar em tempos bons e sobreviver em tempos difíceis. É um modelo que salvaguarda aspirações sociais, econômicas, políticas e culturais conjuntas por meio de empresas de propriedade coletiva e controladas democraticamente.

O conflito entre a gestão e os trabalhadores é minimizado graças à representação democrática e à tomada de decisões, e o exemplo de cooperativas bem sucedidas como El Humoso de Marinaleda pode ser visto em outros lugares – como no caso representativo da cooperativa de Mondragon, a maior do mundo. Localizada no País Basco, norte da Península Ibérica, ela emprega atualmente cerca de 81 mil trabalhadores e realiza um volume de negócio anual de mais de 11 bilhões de euros (aproximadamente 50 bilhões de reais).

No atual declínio da social-democracia, substituída por um neoliberalismo social no contexto espanhol, as cooperativas são um mecanismo capaz de iniciar modelos transformadores de gestão de recursos. O caso de Marinaleda revela o potencial de sucesso destes mecanismos intersetoriais, capazes de enfrentar as desigualdades estruturais resultantes do sistema atual. Num contexto de crise sistêmica, econômica, ambiental, social e política, materializada no ascenso das extremas direitas, estas práticas oferecem formas eficazes de ação coletiva.

No entanto, somente através desta ação coletiva, mobilizada pelas diversas organizações pró-cooperativistas, bem como pelos sindicatos, será possível promover uma consciência social efetiva, capaz de exigir políticas que promovam a cooperativização da economia através de uma série de incentivos fiscais e creditícios

Marinaleda demonstra que uma comunidade dominada pela agricultura familiar terá uma estrutura social mais igualitária e uma vida institucional mais rica, colaborando não só em relações sócio-econômicas bem-sucedidas, como também na geração de vínculos emocionais e psico-afetivos, permitindo que essa gestão seja, como diz Gordillo, “uma forma de educação política e de aquisição de consciência de classe”. 

Gabriel Bayarri é um escritor e antropólogo espanhol

Timothy Ginty é um escritor australiano. Escreve em seu blog, Lives and Times: Writing on the World Around Us.

Scott Arthurson é um escritor australiano.

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AJUSTES FISCAIS, ANDALUZIA, ATAQUE AO ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL, AUSTERIDADE, BEM ESTAR SOCIAL, COMUNISMO, DESAPROPRIAÇÃO, ELEIÇÕES, ESPANHA, PARA SUPERAR UM CAPITALISMO INSUPORTÁVEL, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, REFORMA A

Partido Republicano norte-americano, muito partido, nada Republicano

O Partido Republicano está rachado. Trump implodiu o Partido Republicano. Mas ele não fez isso sozinho.

Existe o Republicano tradicional, conservador, sério nos seus propósitos embora às vezes questionáveis, mas sério, e existe, sob o mesmo guarda-chuva, um saco de gatos ideológico que abriga a ultra direita de Stephen “Steve” Bannon, de Trump, do Klu Klux Klan, da NRA, da QAnon e outras de ideologias similares, que deviam ter sido rejeitadas pelos Republicanos sérios. Essa turma radical se infiltrou e está destruindo o partido.

No Brasil, por exemplo, o PSDB está entregue nas mãos de Dória de um lado e de apoiadores de Jair Bolsonaro do outro. Perdeu sua identidade. O mesmo ocorre nos EUA onde Trump e as seitas do extremismo de direita tomaram parte importante do Partido Republicano. Sarah Palin, do Tea Party, virou uma senhora romântica se comparada às novas estrelas radicais como Banon, QAnon e outras seitas exdrúxulas, que estão tomando o Partido Republicano de assalto. Abrigados no Partido Republicano que finge não enxergá-los, embora antes de serem alçados aos cargos eletivos em nível nacional, tenham feito fama em nível local com suas ideias exdrúxulas como, por exemplo, Marjorie Taylor Greene, simpatizante do QAnon, eleita pelo Estado da Geórgia para a Câmara em 2020.

Os legítimos Republicanos, hoje minoria, correm o risco de desaparecer na esteira da radicalização política norte-americana e da invasão do seu partido pelos bárbaros.

É esse puxadão do Partido Republicano, falso, esse grupo dos invasores, que se recusa a aceitar uma derrota tão cristalina e acachapante nas urnas nas eleições presidenciais norte-americanas de 2020.

Esses grupos sequestraram o Partido Republicano tradicional e os Republicanos legítimos têm medo das milícias digitais – lá como aqui – da extrema direita neonazista de Bannon e afins. Esses Republicanos legítimos só criticam Trump em off e evitam admitir em público a derrota nas eleições.

Ora, 306 x 232 é um resultado indiscutível. Biden deve alcançar, quando a contagem dos votos for totalmente encerrada em todos os Estados, uma vantagem de 5.5 milhões de votos. Em condições normais, o Partido Republicano já teria admitido a derrota e o presidente derrotado já teria aberto as portas da Casa Branca para o vencedor, especialmente para permitir uma transição planejada e o necessário enfrentamento imediato da nova escalada da pandemia do Corona vírus.

O jogo jogado por Trump e seus seguidores vai deixar um rastro de doentes e infectados, que pode levar ao total de mais de 300.000 pessoas que perderam a luta para a Covid no dia da posse de Biden, em 20 de janeiro de 2021.

Trump parece olhar apenas para seu próprio umbigo. Não inova, não surpreende. Trump sendo Trump, por cima dos mortos empilhados

O que seria um fascista-comunista?

O Brasil pirou na batatinha. Essa era uma gíria antiga, do tempo do saudoso Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto. Stanislaw publicou, entre 1966 e 1968, três livros com o título de FEBEAPÁ – Festival de Besteira que Assola o País, uma coletânea de crônicas baseadas em fatos, nas quais debochava das besteiras praticadas pelas autoridades civis e militares da ditadura. Era tanto material que foi possível publicar três livros em um período de dois anos. Não pode publicar mais, pois faleceu em 1968. Se fosse vivo hoje, poderia publicar uma enciclopédia por trimestre.

Hoje assisti a um vídeo onde manifestantantes bolsonaristas de São Paulo queimavam suas máscaras e gritavam slogans raivosos. Não satisfeitos, tiravam selfies, fotos e gravavam vídeos.

Um prato feito.

Enquanto jogavam suas máscaras no fogo, gritavam slogans contra a vacina, contra as máscaras e contra João Dória (que eles elegeram como prefeito e governador).
Chamavam as máscaras de focinheiras, talvez por experiência. Gritavam fora fascistas, fora fascista-comunista, fora comunistas e abaixo a focinheira.
Fascistas chamando os outros de fascistas eu nunca tinha visto. Xingar uma pessoa de fascista-comunista, também não. O que seria um fascista-comunista? Deve ser um tipo de fascista de esquerda, diferente deles que são fascistas-raíz, de extrema direita, uma espécie de fascista-fascista ou nazi-fascista, sei lá. Li, no Facebook, um bolsonarista chamar empresários da mídia de negócios de comunistas e de extremistas de esquerda. Ora, chamar empresários da imprensa que vivem do lucro, da sonegação de tributos e da exploração da mão de obra de comunistas ou de extremistas de esquerda é tão engraçado quanto aquele bando de malucos reunidos para queimar máscaras e chamar seus inimigos de fascistas-comunistas.
Stanislaw Ponte Petra revira-se no túmulo, às gargalhadas.

Idoso da Havan e o lixão ideológico

Leio, em rede social de um partido alinhado com as causas sociais e direitos humanos, críticas políticas ao dono da loja de departamentos Havan, apelidado Véio da Havan.

Robôs e seguidores de Bolsonaro ampliaram sua atuação nas redes sociais e adotaram a estratégia de invadir páginas e sites progressistas e espalhar fake news ou postar comentários absurdos, disfarçados de preocupação com a democracia ou com a liberdade de culto ou de expressão. Nada mais falso.

Este é o caso de um comentário que, a pretexto de defender o Véio da Havan das justas críticas políticas, compara este senhor a Marielle, alegando que ele está sendo vítima do que ele chama de ódio do bem. Ele dá a entender que esse tal ódio do bem é tão pernicioso quanto o ódio do mal, que eles praticam.

Ora, tornou-se normal no Brasil inverter os termos da equação para confundir a sociedade e obter dividendos políticos. O que era consenso, fruto da luta do ser humano pela sobrevivência em uma sociedade de competição e exclusão, o que foi convencionado como civilizatoriamente correto para evitarmos que os mais fortes e poderosos eliminassem os mais fracos transformou-se, na visão dos mais fortes, em conhecimento e sentimento descartáveis.

A civilização, necessária à convivência em equilíbrio dos seres humanos em uma sociedade cada vez mais integrada e interdependente, foi jogada no lixão ideológico dessa extrema direita bárbara.

Seria a crítica política fundamentada em valores éticos e civilizatórios comparável ao ódio – não precisamos qualificá-lo. Ódio é ódio – que a extrema direita dedica a tudo que é humano?

Claro que não. Por isso, fiz questão de responder ao comentarista que comparou o Véio da Havan a Marielle, como se fossem iguais. Leia abaixo:

Senhor comentarista, se você não vê diferença entre Marielle, uma pessoa que dedicou e perdeu sua vida na luta pelos direitos humanos, sem interesses financeiros e/ou escusos e o Idoso da Havan, uma pessoa que só pensa nos seus interesses financeiros e/ou escusos, financia a divulgação de mentiras contra adversários políticos e financiou ilegalmente campanhas políticas baseadas em fake news (o que é crime aqui e em qualquer país sério), entre outras atrocidades que ele fala e pratica,
deve ser porque o senhor o apoia ou é igual a ele.

E está minha manifestação não é ódio do bem nem elogio ao senhor.

Este meu comentário é uma manifestação política em resposta a um comentário absurdo, disfarçado de preocupação honesta. Ele é, na verdade, uma espécie de lamento, um sentimento que todos temos ao ver que a empatia com as pessoas – e no caso da Marielle e do Anderson, com pessoas que foram brutalmente fuziladas – e o que restava de humano, a humanidade, foram parar em um lixão ideológico que está destruindo o Brasil.